Em serviços gratuitos na web, muitas vezes o produto é você. Apesar das reclamações por mais transparência, essa prática continua em segundo plano. Investigadores da Motherboard e da PCMag publicaram uma investigação baseada em documentos vazados da subsidiária da Avast chamada Jumpshot. Os documentos confirmam a venda de dados coletados pelo antivírus Avast, incluindo buscas, cliques e compras feitas online, mas o mais preocupante é a lista de compradores.
A Avast reporta oficialmente cerca de 435 milhões de usuários ativos. O motor principal por trás desse número é seu antivírus gratuito, e não é difícil imaginar que a empresa tente monetizá-lo. A questão é: até que ponto? O primeiro ponto de conflito surgiu em outubro do ano passado, quando Wladimir Palant, criador da extensão Adblock Plus, publicou em seu blog pessoal que as extensões da Avast e da AVG estavam coletando uma quantidade massiva de dados, a ponto de ser possível reconstruir históricos completos de navegação e grande parte do comportamento do usuário na web.
Depois de um bloqueio inicial por parte do Firefox, a Avast confirmou que lançaria versões mais 'transparentes' de suas extensões, mas tudo indica que sua manobra definitiva foi mover a mecânica de coleta para o próprio antivírus. Uma investigação publicada pela Motherboard e pela PCMag, baseada em documentos vazados da subsidiária Jumpshot (adquirida pela Avast em 2013), revela que a Avast está vendendo informações sensíveis de seus usuários a clientes de alto perfil, entre os quais se destacam Google, Microsoft, Pepsi, IBM, L'Oréal, Condé Nast e Home Depot.
Supõe-se que a coleta de dados na Avast seja opt-in, mas não são poucos os usuários que desconheciam a venda dessas informações a terceiros. Uma análise mais aprofundada confirma a obtenção de buscas no Google, localizações e coordenadas GPS no Google Maps, visitas a perfis de empresas no LinkedIn, vídeos do YouTube e acessos a portais de conteúdo adulto (PornHub, YouPorn). Na verdade, também aparecem os termos utilizados nesses portais e até vídeos específicos. Este mega pacote de dados não inclui identificadores pessoais, mas não é possível descartar a possibilidade de desanonimizar alguns usuários.
A comercialização desses dados é feita em diferentes linhas de produtos oferecidas pela Jumpshot a seus clientes. Um dos mais perturbadores tem o nome de 'All Click Feed', que permite a todos os interessados adquirir detalhes sobre os cliques detectados pela Jumpshot em domínios específicos, como Amazon, Walmart, Target, Best Buy ou eBay. Na conta oficial no Twitter, eles falam: "Cada busca. Cada clique. Cada compra. Em cada site.".
E eles estão pagando uma verdadeira fortuna. Uma empresa de marketing de Nova York, Omnicom Media, pagou mais de seis milhões e meio de dólares pelo acesso a dados em 2019, 2020 e 2021. O que a Omnicom recebeu até agora são os feeds de cliques em 14 países diferentes, dos Estados Unidos à Nova Zelândia. A partir do 'comportamento de navegação', o produto 'deduz' o gênero do usuário e sua idade.
E aqui chegamos a outro aspecto preocupante: cada histórico de usuário tem um 'Device ID' atribuído permanentemente. Se alguém combinar quantidade suficiente de dados, esse Device ID poderia desfazer qualquer tentativa de anonimização. De acordo com Eric Goldman, diretor do Instituto de Direito de Alta Tecnologia da Universidade de Santa Clara, é 'quase impossível' anonimizar ou desidentificar dados. Em resumo, até que uma política mais avançada de transparência e privacidade entre em vigor, só podemos recomendar a desinstalação do Avast, AVG e todos os seus produtos associados.
Fonte: Motherboard
Fonte: PCMag