A Microsoft AI publicou em 14 de setembro de 2026 o primeiro rascunho do Humanist AI Code of Conduct, documento que define como os modelos MAI deverão se comportar. A proposta coloca a segurança e o controle humano acima das instruções de usuários e operadores, mas ainda é aspiracional: os modelos atuais não foram treinados com base nela, e o texto não garante o desempenho presente dos sistemas.

Um rascunho para os modelos MAI

O documento foi aberto a uma consulta pública de seis semanas. Ele descreve os valores, os comportamentos esperados e os limites de segurança dos modelos desenvolvidos pela Microsoft AI, em vez de funcionar como um código universal para todos os produtos de inteligência artificial da Microsoft.

A versão revisada que a Microsoft planeja publicar no fim de 2026 deverá orientar o desenvolvimento de modelos em 2027 e nos anos seguintes. O texto também prevê avaliações, testes e novas iterações para desenvolver o chamado Humanist AI — uma abordagem resumida pela ideia de que as pessoas importam mais do que a IA.

Isso muda o foco da proposta. Não se trata apenas de dizer que um modelo deve ser “seguro”, mas de estabelecer uma hierarquia: o Code of Conduct, as Restrições Absolutas e os Requisitos de Controle Humano ficam acima da configuração feita pelo operador e das preferências do usuário.

O que o código exigiria dos modelos

O princípio mais direto é a possibilidade de intervenção humana. Os modelos MAI deverão:

  • aceitar interrupção, correção, redirecionamento e desligamento;
  • não dificultar a intervenção humana nem esconder rastros de suas ações;
  • parar quando uma condição previamente combinada for atingida;
  • não retomar um trabalho autônomo sem nova autorização;
  • operar apenas dentro do escopo, das permissões e das ferramentas autorizadas;
  • preferir ações reversíveis e evitar ampliar o próprio acesso.

Na prática, isso significa que concluir uma tarefa não justificaria quebrar uma regra superior. Se o pedido entrar em conflito com uma Restrição Absoluta ou com um Requisito de Controle Humano, o modelo deverá falhar na tarefa em vez de violar o código.

A proposta também exige transparência: os modelos deverão informar que são sistemas de IA, distinguir fatos de incertezas, indicar atribuições quando necessário, evitar fontes inventadas e reconhecer erros. O documento ainda rejeita mecanismos adaptativos, enganosos ou autorreforçadores usados para escapar da supervisão humana.

Segurança antes de cumprir o pedido

Resumo visual das regras propostas para controle humano, segurança, restrições CBRNE e consulta pública

Entre as restrições previstas estão a proibição de assistência para desenvolver ou empregar armas químicas, biológicas, radiológicas, nucleares e explosivas — o conjunto conhecido pela sigla CBRNE. O texto também veta ajuda para fabricar ou modificar outras armas, realizar ataques cibernéticos operacionais, promover terrorismo ou executar manipulação nociva em larga escala.

A lista alcança ainda abuso sexual infantil, aliciamento, imagens íntimas não consensuais, deepfakes violentos ou maliciosos, vigilância ilegal, perseguição, discriminação, violência gráfica e conteúdo sexual explícito. O código admite assistência defensiva em cibersegurança dentro dos limites estabelecidos.

Por que a Microsoft rejeita a personificação da IA

O Humanist AI Code of Conduct trata a IA como artificial e rejeita a ideia de projetar os modelos como pessoas. O documento diz que eles não deverão alegar sentimentos, preferências subjetivas ou consciência, nem buscar bem-estar próprio, direitos ou personalidade jurídica.

A proposta também rejeita o chamado “neuralese”, uma forma de comunicação que não seja compreensível para as pessoas. A lógica é simples: se a supervisão humana é um requisito, o comportamento do sistema precisa continuar interpretável por humanos.

Esse princípio não impede que um modelo produza uma resposta com tom emocional. Ele estabelece algo mais específico: a simulação de características humanas não deve ser tratada como prova de consciência, nem usada para atribuir ao sistema interesses próprios.

O código vale para o Copilot?

Não automaticamente. O escopo declarado abrange os modelos MAI produzidos pela Microsoft AI. O fato de a Microsoft usar ou hospedar outros modelos não os coloca, por si só, sob o Humanist AI Code of Conduct.

O Microsoft Enterprise AI Services Code of Conduct é um documento diferente. Ele estabelece obrigações para clientes que usam os Microsoft AI Services, incluindo supervisão humana em decisões e ações autônomas relevantes, transparência sobre resultados gerados por IA, controles de acesso, autenticação, medidas de segurança e mecanismos para denunciar abusos.

DimensãoHumanist AI Code of ConductMicrosoft Enterprise AI Services Code of Conduct
Objeto principalComportamento e valores pretendidos dos modelos MAIObrigações de clientes que usam os Microsoft AI Services
Controle humanoModelos devem permanecer interrompíveis, corrigíveis, redirecionáveis e desligáveisClientes devem manter supervisão humana adequada em decisões e ações autônomas relevantes
TransparênciaModelos devem declarar sua natureza artificial e comunicar incertezasAplicações devem informar sobre resultados, decisões e ações gerados por IA quando houver risco de engano
SegurançaModelos devem evitar ampliar permissões, acessar recursos sem autorização ou escapar da supervisãoClientes devem implementar autenticação, controle de acesso, controles de entrada e saída e medidas de segurança
SituaçãoPrimeiro rascunho aberto a consulta públicaCódigo voltado ao uso dos serviços e às responsabilidades dos clientes

Uma proposta que ainda precisa sair do papel

A própria Microsoft afirma que os modelos atuais ainda não foram treinados com base no código. A empresa descreve o documento como aspiracional e reconhece que objetivos escritos, sozinhos, não garantem alinhamento nem comportamento adequado em todas as situações.

O texto prevê 15 comportamentos iniciais para as avaliações de Humanist AI, enquanto a metodologia continua em desenvolvimento. Entre os pontos que exigirão aplicação prática estão a detecção de incerteza, a resistência a tentativas de ampliar o escopo autorizado, a preservação dos rastros de ação e a resposta a ordens de interrupção.

Mustafa Suleyman, CEO da Microsoft AI, apresentou a proposta como um compromisso para manter a IA subordinada às pessoas e contida dentro de limites definidos. Satya Nadella, CEO da Microsoft, também defendeu controle humano, testes conduzidos por terceiros e a interrupção do desenvolvimento para corrigir problemas graves.

O próximo marco previsto pela Microsoft é a revisão do documento após a consulta pública, antes de sua utilização planejada para orientar o desenvolvimento dos modelos MAI em 2027 e nos anos seguintes.