A Meta mantém suspenso o Model Capability Initiative (MCI), programa interno que coletava a atividade de funcionários em computadores de trabalho para ajudar sistemas de inteligência artificial a entender tarefas rotineiras. A suspensão veio depois que os dados puderam ser acessados amplamente dentro da empresa, inclusive informações associadas a conversas privadas.

A empresa afirmou que não tinha indicação de acesso indevido por funcionários e que suspendeu o MCI enquanto investigava o problema. O episódio expõe uma tensão difícil de ignorar: coletar exemplos reais pode ajudar no treinamento de IA, mas transforma atividades de trabalho em dados sensíveis que precisam de controles de acesso rigorosos.

O que era o Model Capability Initiative

O MCI foi apresentado internamente pela Meta em abril de 2026. A proposta era registrar como as pessoas usam um computador para ensinar sistemas de IA a executar tarefas como selecionar opções em menus e usar atalhos de teclado.

Na prática, o programa coletava teclas pressionadas e movimentos do mouse em dispositivos de trabalho. Também foram descritas capturas ocasionais do conteúdo da tela. O escopo inicial mencionado para a iniciativa abrangia funcionários da Meta nos Estados Unidos.

O objetivo não era apenas registrar um resultado final, como o botão que alguém selecionou. A ideia dependia da sequência de interações: onde a pessoa movia o cursor, quais teclas pressionava e como navegava pela interface. É justamente esse nível de detalhe que pode tornar os dados úteis para treinar sistemas capazes de operar softwares — e também mais delicados de proteger.

A reação dos funcionários e a pausa de 30 minutos

No lançamento, os funcionários inicialmente não tinham uma opção para sair do programa. Mais de 1.800 pessoas assinaram uma petição pedindo o fim do MCI e criticando a coleta de atividade nos computadores de trabalho.

Em junho, a Meta adicionou um controle que permitia pausar o monitoramento por até 30 minutos durante tarefas sensíveis. A medida oferecia uma interrupção pontual, mas não mudava o fato de que o programa havia sido criado para acompanhar a interação cotidiana com os dispositivos de trabalho.

Depois, um engenheiro da Meta identificou que os dados coletados pelo MCI podiam ser acessados em diferentes áreas da empresa, inclusive dados relacionados a conversas privadas. A iniciativa foi suspensa enquanto a Meta investigava o problema.

Acesso amplo não significa uso indevido confirmado

Há duas questões diferentes nesse caso. A primeira é de permissão: os dados do MCI podiam ser acessados amplamente dentro da Meta. A segunda é de uso efetivo: a Meta afirmou não ter indicação de que funcionários tenham acessado os dados de maneira indevida.

A distinção importa porque uma configuração ampla de acesso aumenta o alcance potencial de um incidente, mas não prova, por si só, que alguém tenha usado os dados de forma abusiva. Até o momento descrito pela empresa, a exposição interna e a investigação são fatos separados de uma confirmação de uso indevido.

O futuro do MCI continua em aberto

A Meta mantém o MCI suspenso, mas não anunciou seu cancelamento definitivo. A empresa também não informou se os dados coletados chegaram a ser usados para treinar modelos de inteligência artificial.

Assim, a suspensão encerra a operação do programa no momento, mas não define sozinha o destino da iniciativa nem o uso final do material reunido. O ponto mais concreto é que um projeto criado para ensinar sistemas de IA a lidar com computadores acabou envolvendo dados de atividade profissional cujo acesso interno precisou ser investigado.