Nas últimas décadas a palavra hacker tem sido automaticamente associada aos computadores pessoais, no entanto, a história nos diz que o hacking como prática precede em muito o inesquecível IBM PC. Cartões perfurados, telefones e telégrafos foram os alvos favoritos de especialistas e entusiastas, focados em demonstrar as fraquezas desses sistemas, obter alguns dólares extras e, em casos mais críticos, salvar vidas. Hoje vamos citar alguns deles.

Já conhecemos muito bem a situação: Se alguém adivinha a senha de um perfil do Facebook, é um hacker. Se consegue quebrar um programa, é um hacker. Se usa um serviço VPN, é um hacker. Se consegue substituir o disco rígido do seu computador, é um hacker. Se não usa Windows, é um hacker.

Qualquer coisa que fique «fora» do uso normal de um computador pessoal pode atribuir a uma pessoa o rótulo de hacker, quando na verdade ela está apenas explorando outros caminhos.

Na verdade, esses exploradores remontam ao início do século XX, na infância mesma das comunicações sem fio. Você gostaria de saber o que os hackers fizeram durante a era pré-IBM PC? Se a resposta for afirmativa, então vamos ver alguns casos:

12 hackers que vieram antes da invenção do computador pessoal
Nevil Maskelyne

Nevil Maskelyne

Este mágico e inventor britânico manteve uma estreita relação com o desenvolvimento do telégrafo sem fio, e tinha motivos de sobra para se dar mal com Guglielmo Marconi, que controlava um grande número de patentes.

12 hackers que vieram antes da invenção do computador pessoal
Não chegou a desacreditar completamente Marconi, mas o deixou ridículo por um bom tempo...

Quando o engenheiro italiano declarou abertamente que "sua" telegrafia sem fio era "segura e privada", Maskelyne decidiu provar o contrário. Durante uma demonstração pública organizada por Marconi em junho de 1903, que iria conectar dois telégrafos sem fio separados por uma distância de 480 quilômetros, Maskelyne conseguiu injetar na transmissão a palavra "Ratas" repetidamente, seguida por uma zombaria sobre "um jovenzinho da Itália" (Marconi tinha 29 anos) que "enganou as pessoas". Isso foi mais do que suficiente para transformar Maskelyne no primeiro hacker.

René Carmille

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Sem dúvida, um dos primeiros hackers éticos do mundo

Carmille era contralor geral do exército francês e especialista em cartões perfurados, com controle sobre as máquinas que o governo do colaboracionista nazista Philippe Pétain utilizava para processar "informação demográfica", ou seja, o rastreamento de judeus e outros "Untermensch" na França.

Carmille se ofereceu como voluntário e cedeu seus sistemas... mas não sem antes modificá-los para que nunca perfurassem informações na chamada "Coluna 11" (Religião) dos cartões, salvando milhares de judeus.

Carmille era, na verdade, um agente duplo da Resistência, e encontrou uma forma de enganar os nazistas por dois anos. Quando descobriram sua manobra, ele foi capturado e interrogado pessoalmente por dois dias por Klaus Barbie, "O Açougueiro de Lyon", e enviado para Dachau, onde morreu em janeiro de 1945. O homem que hackeou o Holocausto.

David Condon

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Não há imagens de Condon, e localizar a flauta foi problemático...

Os anos 60 e 70 foram marcados pela prática do phreaking, cujo objetivo era aproveitar as fraquezas do sistema telefônico para acessar serviços especiais como chamadas de longa distância.

No entanto, o primeiro phreak iniciou sua atividade em 1955. Seu nome era David Condon, e basicamente descobriu que ao soprar uma flauta de brinquedo do Davy Crockett junto ao telefone podia gerar o tom de 1.000 Hz que habilitava o acesso a chamadas gratuitas, exclusivas entre os técnicos da companhia telefônica.

Em teoria, a flauta servia apenas para atrair canários e periquitos, e com um preço original de 49 centavos ninguém deveria esperar muito, mas hoje não há dúvidas de que Condon recuperou seu investimento.

Joe Engressia

Talvez Condon tenha sido o primeiro phreak do qual temos conhecimento, mas quem se encarregou de popularizar esses hacks foi Joe Engressia, muito mais conhecido pelo seu segundo nome, Joybubbles.

Nascido cego e com ouvido absoluto, Engressia descobriu que podia discar números telefônicos batendo no gancho em alta velocidade, e assobiar com precisão os tons compatíveis com chamadas de longa distância, uma habilidade que transformou em um serviço enquanto estudava na universidade (ele "vendia" seus assobios por um dólar).

A popularidade de Engressia entre outros phreaks (e impulsionada pela cobertura da revista Esquire) inevitavelmente o colocou em problemas com a Ma Bell (o apelido da Bell Telephone Company) e com o FBI, agência que rastreou suas atividades por dois anos, entre 1969 e 1971.

Um verdadeiro gênio, com profundas cicatrizes mentais causadas pelo abuso que sofreu nas mãos de um de seus professores, Engressia "voltou à infância" em 1988, e mudou seu nome para Joybubbles três anos depois. Este phreak se tornou fonte de inspiração, e até Hollywood usou parte de sua vida para dar forma a alguns personagens (como Whistler no filme Sneakers).

Allan Scherr

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Na verdade, o da foto é Corbató

O conceito de senha foi inventado e implementado pelo professor do MIT Fernando Corbató em 1962. Além de fornecer uma camada extra de privacidade para estudantes e pesquisadores que usavam os servidores compartilhados, as senhas também serviam para limitar o tempo deles, apenas quatro horas semanais por conta.

Um desses pesquisadores, Allan Scherr, cansou-se do limite de tempo e projetou um cartão perfurado para forçar o servidor a imprimir todas as senhas das contas registradas, de modo que quando esgotasse sua cota, bastaria reentrar no sistema com um usuário diferente. Três anos depois, Scherr terminou nas fileiras da IBM, mas sua história como o primeiro ladrão de senhas é inesquecível.

Carlton Tucker

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O artigo com a expressão 'hackers' de Tucker

O nome não soa familiar? Pessoalmente não posso culpá-lo, mas o professor Tucker ocupa um lugar muito especial nesta lista como o primeiro a usar a palavra hacker com um perfil negativo.

O ano era 1963, e os phreaks estavam fazendo um verdadeiro estrago no sistema telefônico do MIT. Tucker declarou no jornal do instituto que esses "hackers" haviam assumido o controle dos links privados entre o MIT e Harvard, e transferido o custo de suas chamadas de longa distância para uma estação de radar próxima.

Um de seus métodos preferidos era conectar o computador PDP-1 à rede telefônica e testar cada linha disponível até encontrar um tom. Embora Tucker tenha dito que faria todo o possível para alertar e proteger os envolvidos, também lembrou que se a companhia telefônica os pegasse, eles acabariam na prisão, e que o MIT expulsava "dois ou três estudantes" por ano devido a abusos telefônicos.

RABBITS

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RABBITS foi o primeiro caso de uma bomba fork

Infelizmente não conhecemos a identidade do hacker original, mas sim a sua criação. Em algum momento de 1969, um misterioso usuário instalou um pequeno programa (hoje batizado de RABBITS) no sistema Burroughs 5500 do Centro de Informática da Universidade de Washington, cujo único papel era fazer uma cópia de si mesmo cada vez que era executado.

Essas duas cópias se tornaram quatro, e as quatro oito... até que o sistema colapsou por sobrecarga. Nove anos depois, alguém executou uma variante semelhante chamada Wabbit em um IBM System/360. Do ponto de vista técnico, RABBITS e Wabbit não são vírus nem vermes, mas aplicam o conceito de bomba fork, um verdadeiro clássico entre os ataques DoS.

Ray Tomlinson e Bob Thomas

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Pegue-me se puder!

Ray Tomlinson é o criador do e-mail. Bob Thomas desenvolveu o que muitos consideram o primeiro vírus de computador, Creeper. Em sua versão original, Creeper não fazia nada além de exibir uma mensagem ("I'm the Creeper, catch me if you can!"), mover-se para outro sistema e apagar a cópia anterior. Tomlinson não teve ideia melhor do que dar superpoderes a Creeper (o vírus não se movia, mas se multiplicava) e soltá-lo na ARPANET.

Por sorte, Tomlinson também escreveu o antivírus Reaper, uma espécie de Exterminador do Futuro digital com a única tarefa de destruir cada cópia de Creeper que encontrava nos sistemas. Já se passaram quase 50 anos desde o nascimento do Creeper, e, em essência, todos os vírus modernos têm algo dele em seu interior.

Wozniak e Jobs

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A dupla da maçã começou vendendo blue boxes

Apesar de nossa simpatia ou rejeição, esse time não podia faltar. Depois de ler o famoso artigo sobre Joybubbles e o resto dos phreaks na revista Esquire, Steve Wozniak entrou em contato com John "Captain Crunch" Draper e aprendeu a construir sua própria blue box. Wozniak ficou obcecado por aquele artigo e chegou a reproduzi-lo em sua máquina de escrever, um backup caso perdesse o texto.

Depois de fazer algumas otimizações (e várias ligações de brincadeira que se estenderam até o Vaticano), Wozniak apresentou sua blue box a Steve Jobs, e como era de se esperar, o mais jovem dos Steves viu um negócio redondo no dispositivo. Wozniak construía as blue boxes com um custo de 75 dólares, e Jobs as vendia entre os estudantes a 150 verdinhas. Ilegal até a medula, mas eles ganharam alguns trocados...

John Walker

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O primeiro trojan foi um jogo de perguntas

Qualquer pesquisa básica sobre John Walker revelará que ele é um dos fundadores da Autodesk (empresa-mãe do famoso AutoCAD)... mas também escreveu o ANIMAL em 1975 para o sistema UNIVAC 1108. À primeira vista, ANIMAL era um jogo de perguntas e respostas que tentava adivinhar em que animal o usuário pensava.

Em segundo plano, ANIMAL trabalhava junto com outro programa chamado PERVADE para criar cópias de ambos em cada diretório ao qual o usuário podia acessar, inclusive estruturas em fitas magnéticas, o que garantiu seu salto para outros sistemas compatíveis. ANIMAL não podia causar nenhum dano e respeitava em grande parte a ausência de permissões, mas isso não mudou sua posição como o primeiro trojan.

Fonte:

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Hackers