A Anthropic afirma que atores ligados à China usaram o Claude em projetos de engenharia militar, em uma operação de vigilância e tentativa de recrutamento de uigures na Síria e em campanhas de destilação de modelos. As atividades descritas ocorreram entre dezembro de 2025 e agosto de 2026. A empresa diz ter interrompido os casos e reforçado suas proteções, mas as alegações não equivalem a uma decisão judicial nem demonstram uso direto do Claude pelo Exército de Libertação Popular ou pela Marinha do Exército de Libertação Popular.

O que a Anthropic afirma ter descoberto

Os casos ligados à China destacados no relatório de setembro de 2026 abrangem três frentes: apoio à engenharia de sistemas militares, análise de material ligado a uma operação contra uigures na Síria e extração em larga escala de respostas para treinar ou aprimorar outros modelos.

No caso militar, a Anthropic descreve dois projetos separados. Um deles envolveu uma especificação em chinês para um sistema de controle de tiro antitorpedo, uma proposta de aquisição com mais de 200 páginas e comparações com programas antitorpedo e antissubmarino dos Estados Unidos. A empresa avaliou que o trabalho estava associado a um fabricante chinês de defesa que buscava um possível cliente na Marinha do Exército de Libertação Popular, mas não atribuiu a atividade a uma entidade específica.

O segundo projeto teria usado os recursos de conversa, programação e execução agentiva do Claude para criar e aperfeiçoar cerca de 16 módulos de guerra eletrônica e supressão de defesas aéreas. A atividade foi associada, por metadados e conteúdo das contas, a instituições de pesquisa chinesas, incluindo a PLA Academy of Military Sciences. Essa associação não transforma a instituição em operadora direta confirmada do Claude.

Os dois projetos militares relatados

A distinção entre os casos importa. O projeto antitorpedo produziu documentação de engenharia e uma proposta extensa; o projeto de guerra eletrônica gerou módulos de software. São resultados diferentes, com escopos diferentes — não duas formas de medir a mesma atividade.

Uma descrição publicada sobre o segundo caso menciona um cenário simulado com 12 alvos em Taiwan. Isso representa alvos de uma simulação, não 12 ataques reais. O episódio também não comprova que o Claude tenha sido empregado diretamente por uma força militar ou que qualquer sistema tenha sido levado ao campo de batalha.

Operação relatadaAtividadeResultado ou escala relatadaPeríodo ou condição
Projeto antitorpedoApoio à especificação e à proposta de aquisição de um sistema de controle de tiroProposta técnica com mais de 200 páginasCaso descrito pela Anthropic entre dezembro de 2025 e agosto de 2026
Projeto de guerra eletrônicaDesenvolvimento de módulos de guerra eletrônica e supressão de defesas aéreasCerca de 16 módulos; cenário simulado com 12 alvos em TaiwanCenário simulado; o período geral dos casos vai de dezembro de 2025 a agosto de 2026
Operação ligada a uiguresRastreamento, criação de perfis e tentativa de recrutamentoAnálise e tradução de material obtido por uma infraestrutura externaPessoas e formações uigures na Síria
Operadores ligados à AlibabaUso em larga escala de respostas do Claude para destilaçãoMais de 151 milhões de trocasMaio a julho de 2026; quase 3 milhões de solicitações por dia no pico
Atividade ligada à DeepSeekExtração de respostas do Claude para destilaçãoMais de 12,1 milhões de trocas14 dias em julho de 2026
Atividade ligada à XiaomiExtração de respostas do Claude para destilaçãoMais de 400 mil trocas20 dias em março e abril de 2026

A vigilância de uigures

A Anthropic descreve uma operação alinhada ao governo da República Popular da China que rastreou e criou perfis de uigures e de formações armadas uigures na Síria, além de tentar recrutá-los. A empresa afirma que o Claude ajudou a analisar e traduzir o material coletado por uma infraestrutura externa.

Essa formulação é importante: o Claude aparece como ferramenta de análise e tradução, não como o sistema que entrou ou coletou mensagens de grupos do WhatsApp ou do Telegram. A Anthropic também avaliou, com baixa confiança, que a operação envolvia um contratado que trabalhava para a segurança do Estado da República Popular da China, e não necessariamente um órgão estatal operando diretamente.

Destilação não é automaticamente roubo

Destilação é uma técnica de treinamento na qual um modelo “professor” fornece respostas que ajudam a treinar outro modelo. O método, por si só, pode ser legítimo e não exige a transferência do código-fonte ou dos pesos do modelo original.

A acusação da Anthropic é outra: as campanhas descritas teriam usado contas fraudulentas, redes de intermediários ou outros meios para contornar controles e extrair grandes volumes de respostas do Claude. Isso transforma o foco da discussão no modo de acesso e no uso dos resultados — não em uma conclusão automática de que o código ou os pesos do Claude foram transferidos.

Os volumes de trocas atribuídos

Os números aparecem em janelas diferentes e não devem ser somados como se representassem uma única campanha ou uma contagem de pessoas. A Anthropic atribuiu mais de 151 milhões de trocas entre maio e julho de 2026 a operadores ligados à Alibaba, com quase 3 milhões de solicitações diárias no pico e mais de 3.500 contas fraudulentas nessa campanha.

Também foram atribuídas mais de 12,1 milhões de trocas à DeepSeek ao longo de 14 dias em julho de 2026 e mais de 400 mil trocas à Xiaomi durante 20 dias em março e abril de 2026. No caso da Xiaomi, a Anthropic afirma que sua investigação não indicou que as respostas do Claude tenham sido oferecidas aos próprios usuários da empresa.

O que a acusação significa — e o que não significa

O relatório apresenta conclusões de inteligência sobre atividades que a Anthropic diz ter detectado e interrompido. Ele não confirma que o PLA, a People’s Liberation Army Navy ou a PLA Academy of Military Sciences tenham operado diretamente o Claude. Também não transforma Alibaba, DeepSeek ou Xiaomi em partes legalmente condenadas por roubo, nem demonstra transferência do código-fonte ou dos pesos do modelo.

A consequência mais concreta está na segurança dos serviços de IA: modelos acessíveis podem ser usados não apenas para gerar texto ou código, mas também para acelerar projetos militares, analisar material de vigilância e produzir dados para treinar concorrentes. A disputa, portanto, combina controle de acesso, uso dual e limites da destilação — sem que uma alegação de extração de respostas possa ser convertida, sozinha, em prova de roubo de um modelo.