A concordância de até 15% entre os detectores de radiação da Artemis I vale para a dose medida abaixo de 100 keV/μm de transferência linear de energia (LET) na água. Acima desse limite, os detectores de fluoreto de lítio podiam superestimar a dose em até 30% em relação aos detectores de plástico; o fator de qualidade podia ficar cerca de 15% maior.
Esse limite ajuda a interpretar o que o estudo mediu: uma comparação entre métodos de detecção em um fantoma dentro da cápsula Orion, não uma estimativa da dose recebida por um astronauta.
O que os detectores da Artemis I mediram
Durante a missão não tripulada Artemis I, o experimento MARE levou detectores de radiação e fantomas antropomórficos a bordo da Orion. O artigo publicado em 2026 comparou detectores fluorescentes de traços nucleares de fluoreto de lítio (FNTDs de LiF) com detectores de traços nucleares de plástico PADC (PNTDs), instalados nas mesmas posições do fantoma Zohar, que usava o colete AstroRad.
LET é a energia que uma partícula transfere ao material ao percorrer determinada distância. Ela ajuda a separar os resultados conforme o tipo de trajetória de energia registrada pelos detectores. Os FNTDs de LiF registram traços como centros fluorescentes no cristal; depois da exposição, imagens feitas ao microscópio são analisadas para estimar o LET. Os PNTDs de PADC, usados como referência, são revelados por ataque químico.
Onde a concordância de 15% se aplica
Para LET abaixo de 100 keV/μm na água, a dose calculada pelos FNTDs ficou dentro de 15% da obtida pelos PNTDs. A concordância entre os métodos para o fator de qualidade ficou dentro de poucos pontos percentuais. Acima de 100 keV/μm, os FNTDs superestimaram os resultados dos PNTDs: até 30% para dose e cerca de 15% para fator de qualidade.
A dose absorvida mede a energia depositada por unidade de massa; a dose equivalente aplica um fator de qualidade para ponderar o tipo de radiação. Por isso, os percentuais de concordância dessas duas grandezas não são intercambiáveis.
A comparação também teve diferenças no número de traços analisados: cerca de 150 nos espectros de FNTD, contra quase 2.000 nos de PNTD. O artigo relata ainda subcontagem de traços de baixo LET abaixo de aproximadamente 15 a 20 keV/μm. Esses fatores ajudam a situar os resultados dos detectores sem transformar uma concordância limitada em validação de toda a faixa de energia.
Valores sob o colete no fantoma Zohar
Na posição sob o colete, o estudo calculou dose absorvida e dose equivalente para duas faixas de LET. Os valores abaixo de 10 keV/μm não estão incluídos. As incertezas informadas são de estatística de contagem; não incluem contribuições de calibração e correção.
| Faixa de LET na água | Detector | Dose absorvida | Dose equivalente |
| Acima de 10 keV/μm | FNTD de LiF | 3,1 ± 0,5 mGy | 48,5 ± 9,3 mSv |
| Acima de 10 keV/μm | PNTD de PADC | 2,4 ± 0,1 mGy | 32,7 ± 1,3 mSv |
| 10 a 100 keV/μm | FNTD de LiF | 1,4 ± 0,2 mGy | 13,4 ± 2,5 mSv |
| 10 a 100 keV/μm | PNTD de PADC | 1,6 ± 0,1 mGy | 16,6 ± 0,7 mSv |
A faixa “acima de 10 keV/μm” inclui valores acima de 100 keV/μm, onde aparece a superestimação dos FNTDs. Já o intervalo de 10 a 100 keV/μm permite observar a comparação dentro da faixa em que a dose concordou em até 15%.
O que os números de Orion e da ISS acrescentam
Um estudo separado, publicado em 2024, mediu taxas de dose equivalente de raios cósmicos galácticos (GCR) de 0,96 a 1,24 mSv por dia dentro da Orion. O mesmo estudo listou 0,68 mSv por dia para a Estação Espacial Internacional (ISS) e 1,40 mSv por dia para um valor da ISS extrapolado para o espaço livre. A última cifra é uma extrapolação, não uma medição feita no espaço livre.
Esses valores têm bases distintas e não formam uma comparação única entre a órbita lunar e a órbita terrestre. O estudo de 2026 compara detectores em posições do fantoma; os números de Orion e da ISS vêm da análise separada de 2024. A medição no fantoma também não prevê o risco individual à saúde, que depende de fatores como biologia, blindagem, trajetória e condições de exposição.
O artigo de 2026 sobre os detectores de LiF foi publicado online em 1º de setembro de 2026. O estudo na revista Radiation Measurements detalha a comparação entre FNTDs e PNTDs.