Em 16 de setembro de 2026, Pierre-Loup Griffais, engenheiro da Valve, afirmou que o trabalho no Steam Frame está abrindo caminho para um SteamOS mais geral voltado a PCs ARM. A ideia alcança notebooks ultrafinos, computadores 2 em 1, mini PCs e outras plataformas parecidas com desktops — mas ainda depende de resolver problemas de hardware e compatibilidade que não aparecem em um único modelo de referência.

A Valve quer levar o SteamOS além do Steam Frame

O Steam Frame é o contexto imediato desse esforço: um headset de realidade virtual com processador ARM capaz de executar jogos localmente. Para Griffais, a arquitetura também está ganhando espaço em notebooks e plataformas de mesa, e a Valve quer permitir que esses aparelhos acessem uma biblioteca ampla sem serem avaliados por terem um catálogo separado.

Essa é uma direção de desenvolvimento, não o anúncio de um produto com data de lançamento. A página oficial de download da Valve apresenta uma imagem do SteamOS para o Deck, enquanto o trabalho mais abrangente para ARM ainda está ligado à evolução da plataforma.

A motivação é simples: escolher um computador ARM não deveria significar aceitar automaticamente uma seleção menor de jogos. Na prática, porém, transformar essa intenção em suporte consistente exige integrar muitos tipos de hardware.

FEX é a ponte entre jogos x86 e processadores ARM

A maioria dos jogos de PC foi desenvolvida para processadores x86, a arquitetura tradicional de computadores com chips Intel e AMD. ARM usa outro conjunto de instruções. É aí que entra o FEX, um projeto de código aberto que traduz programas x86 para que possam ser executados em ARM.

O FEX não substitui o Proton. As duas tecnologias atuam em etapas diferentes:

  • FEX traduz o código x86 para a arquitetura ARM.
  • Proton fornece a camada de compatibilidade para executar jogos de Windows em um sistema Linux, como o SteamOS.

Em um PC ARM, portanto, um jogo de Windows pode depender das duas camadas: Proton para a parte Windows-Linux e FEX para a diferença entre x86 e ARM. É uma solução engenhosa — e também uma pilha com mais pontos de falha do que a execução de um jogo x86 em um computador x86.

A ambição da Valve é fazer essa combinação trabalhar com uma parcela muito maior da biblioteca Steam. O catálogo de jogos de Windows compilados diretamente para ARM ainda é descrito como de algumas centenas, enquanto a meta associada ao Steam Frame envolve milhares de jogos executados localmente.

O que já funciona em ARM

Steam rodando nativamente em um portátil ARM com RockNix, Proton 11 Beta e FEX

Hoje, Steam pode rodar nativamente em determinados portáteis ARM por meio de uma configuração comunitária com RockNix, uma distribuição Linux baseada em Arch Linux, além de Proton 11 Beta e FEX. A demonstração mostra o cliente Steam instalado em hardware com Snapdragon, a seleção do Proton 11.0 (beta) nas configurações de compatibilidade e jogos em execução.

Esse resultado é importante porque não depende de streaming nem de um aplicativo emulador de Android: trata-se do Steam para Linux executado no próprio dispositivo. Também é específico da combinação de sistema, chip, drivers e jogos usada na demonstração. Um portátil ARM funcionando não transforma automaticamente outros aparelhos em dispositivos compatíveis com SteamOS.

A experiência ainda pode incluir problemas por jogo. O funcionamento de FEX resolve a diferença entre arquiteturas, mas não garante que todos os mecanismos gráficos, sistemas anticheat ou componentes de um título se comportem corretamente.

ARM e x86: onde está a diferença prática

AspectoDireção do SteamOS para ARMSteamOS em hardware x86 compatível
ProcessadorChips ARMProcessadores x86, como os usados em sistemas Intel e AMD
Compatibilidade de arquiteturaFEX traduz código x86 para ARMNão precisa da etapa adicional de tradução x86 para ARM
Jogos de WindowsProton continua cuidando da compatibilidade com LinuxProton cuida da compatibilidade com Linux
Principal desafioÁrvores de dispositivos, gráficos integrados, drivers e compatibilidade por jogoO suporte é mais estabelecido em hardware x86 compatível, embora a plataforma continue recebendo trabalho para outros componentes gráficos

Por que o suporte é difícil fora de um aparelho específico

No mundo ARM, fabricantes diferentes descrevem e organizam o hardware de maneiras diferentes. As chamadas árvores de dispositivos informam ao sistema operacional onde encontrar processador, memória, controladores e outros componentes. Como esses mapas variam entre fabricantes, uma imagem de sistema preparada para um aparelho não necessariamente funciona em outro.

O desempenho gráfico também muda bastante entre dispositivos. Dois computadores ARM podem usar chips da mesma família e ainda apresentar resultados diferentes por causa da GPU integrada, dos drivers, do resfriamento e dos limites de energia. A tradução de instruções não elimina essas diferenças.

Há ainda as particularidades de cada jogo. Anticheat, renderização gráfica e dependências específicas podem impedir que um título funcione mesmo quando a camada de tradução está instalada. Por isso, a expansão do SteamOS precisa combinar suporte ao sistema, drivers adequados e ajustes de compatibilidade para uma biblioteca que não foi criada originalmente para ARM.

O que isso significa para quem compra um PC ARM

A possibilidade é especialmente interessante para quem busca notebooks ultrafinos, 2 em 1, mini PCs ou portáteis baseados em ARM sem abrir mão dos jogos de PC. Mas, no momento, a decisão precisa ser feita pelo conjunto completo: modelo do aparelho, GPU integrada, drivers, distribuição Linux e compatibilidade do jogo específico.

Para esses equipamentos, a pergunta deixou de ser apenas se existe um processador ARM capaz de executar um jogo. Também envolve saber se o sistema operacional reconhece corretamente o hardware, se o Proton e o FEX trabalham bem juntos e se o título aceita essa combinação. É justamente essa camada de detalhes que a Valve pretende tornar menos visível para o usuário final.