Durante os anos 90, na Rússia, e como se fosse uma dimensão paralela e análoga, as crianças vivenciaram misérias que pareciam calcadas daquelas que nós, crianças de toda a América Latina, também sofremos. O que podíamos ter em comum os garotos de países tropicais com aquelas crianças castigadas pelo frio e pela ventisca, com idiossincrasias totalmente diferentes? Simples: todos habitávamos países pobres, onde a Nintendo nunca lançou oficialmente seu console de 8 bits e onde choveram cópias chinesas e baratas do Famicom.
Este é um artigo de nicho, desculpem. De super nicho, melhor! Para apreciá-lo, você precisa ter mais de 30 anos e ter habitado, no final dos anos 80 e início dos anos 90, em algum país empobrecido da América Latina. Os da minha geração, pelo menos os que gostavam de videogames, têm essa história escrita a fogo: aqui, a Nintendo nunca lançou oficialmente seu console de 8 bits, e os que se conseguiam eram muito caros, de exportação e sem jogos compatíveis à venda nos comércios locais. Por isso, como na Rússia, dominaram os clones piratas chineses do Famicom, a versão japonesa da super popular Nintendo NES.
É sobre esses clones baratos que trata "La Maldición del Elefante Gris", o documentário russo que segue abaixo.
Esses clones piratas, embora ilegais, eram muito mais baratos e compatíveis com os cartuchos de jogos (também bootlegs) que se vendiam em todos os comércios do ramo. Na Argentina, por exemplo, ter um Nintendo NES era uma estupidez, mesmo se você tivesse dinheiro para comprá-lo. Era limitar a disponibilidade dos jogos, pagando muito mais por isso! Por isso, e apesar dos problemas que essas cópias chinesas causavam, pode-se dizer até que foi uma sorte que a Nintendo não se interessasse em fazer negócio em nossos países. Se até tivemos jogos exclusivos, que não saíram para o NES!
Mas esses clones, embora super acessíveis para o bolso de quase qualquer família com trabalho, não chegaram sem problemas. É sobre isso que trata este documentário russo intitulado "La Maldición del Elefante Gris", narrado por um jovem russo que sofreu com os mesmos erros de design nos consoles que nós, mas do outro lado do mundo. Sua história parece a nossa e em sua frustração podemos nos identificar.
- Controles integrados no console que não podiam ser removidos se quebrassem
- Controles sem os botões Start ou Select
- Cartuchos com ilustrações insólitas que nada tinham a ver com o jogo em seu interior
- Superaquecimento de consoles e transformadores
- Televisores antigos sem entrada de áudio e vídeo, exigindo "sintonizar" o jogo para vê-lo apenas em preto e branco
- Os infames cartuchos de 1000 jogos em 1
O nome "Elefante Cinza" vem da cor do console e mais ainda do logotipo da Dendy, a empresa que distribuía os clones na Rússia. Para a América Latina chegavam os de cor vermelha e branca, e são conhecidos amigavelmente como "o Family" (pelo texto "Family Game" que se lia na frente do console). Você se lembra? Que marca você tinha em casa? Na minha, primeiro tivemos um "Froggy" e depois um "Electrolab". Eu os amava!
"La Maldición del Elefante Gris" é um documentário amador, gravado por um sujeito como nós, comum, que viveu, sofreu e aproveitou os famiclones daqueles anos. Tem legendas em "espanhol" e está cheio de detalhes suculentos e reconhecíveis para todos que tiveram uma dessas máquinas em casa. Se depois de assisti-lo você for atacado pela nostalgia, recomendo este artigo e este outro, para espantá-la jogando.