O lançamento da primeira geração do iPad ocorreu em abril de 2010. Ele vendeu três milhões de unidades em apenas 80 dias, aniquilou o mercado de netbooks e todo o universo de tablets foi obrigado a correr atrás do seu sucesso. Mesmo assim, a Apple tomou decisões de design bastante chamativas com o iPad, começando pela falta de suporte ao Flash (problemático em 2010) e pela ausência de um app oficial de calculadora. Quase 14 anos depois, o iPad continua sem calculadora. Qual é o problema?
A calculadora é um recurso básico para qualquer dispositivo, seja portátil ou de mesa. Na verdade, é bastante comum encontrá-la como “exercício de programação” e, em geral, o usuário não presta muita atenção a ela. No entanto, existe uma situação bastante curiosa: o iPad não possui uma calculadora. Agora, é provável que alguns pensem que estou maluco, já que o iPhone, o Apple Watch e os Macs têm suas calculadoras. Mas o iPad permanece como uma exceção, mesmo com a versão mais recente do iOS instalada. Por quê?
Por que o iPad não tem calculadora oficial?
O pessoal do Apple Explained nos explica neste vídeo de 2021 que Scott Forstall (a cargo do desenvolvimento de software para o iPad e, especialmente, do esqueuomorfismo da sua interface) teve uma reunião com Steve Jobs um mês antes do lançamento oficial. Naquela época, o app de calculadora no iPad não passava de uma versão em escala do que já existia no iPhone. Imediatamente, Jobs perguntou onde estava o novo design para a calculadora, porque o atual “era horrível”. Forstall explicou que não havia novo design e que o iPad chegaria ao mercado com aquela solução. Jobs se opôs totalmente. Forstall tentou convencê-lo, mas não conseguiu muito: ou criava um novo design para a calculadora, ou retirava o app. Com poucas semanas no calendário, Forstall escolheu a segunda opção.
Agora, alguns podem pensar que esse é um problema exagerado, já que a App Store possui uma enorme quantidade de calculadoras que preenchem esse vazio, mas essa não foi a primeira vez que Jobs cruzou espadas com uma calculadora: o design original do Macintosh também lhe parecia espantoso. Chris Espinosa, seu criador original (e o funcionário mais antigo da Apple até hoje), desenvolveu múltiplas versões, mas nenhuma o convenceu. A solução? Criar um ambiente gráfico para que o “chefe” definisse cada aspecto visual possível.
Qual é a resposta oficial mais recente? Jobs faleceu em 2011, e a empresa tomou algumas decisões que ele definitivamente teria rejeitado (por exemplo, o Apple Pencil), mas a calculadora no iPad ainda brilha pela sua ausência. A melhor referência veio por meio de Marques Brownlee, que entrevistou Craig Federighi (vice-presidente sênior de Engenharia de Software da Apple) há alguns anos. Basicamente, Federighi disse que o objetivo é criar algo diferente nesse espaço, e que isso não acontecerá até obter um design grandioso, que surpreenda os usuários.
O vídeo conclui explorando a filosofia conservadora que a Apple mantém para seus designs. Por exemplo, o suporte a Copy & Paste chegou muito depois do Android, e as bibliotecas de apps só apareceram no iOS 14. Também se pode dizer o mesmo da empresa em geral, que costuma rejeitar a possibilidade de megaquisições e permanece à margem de hypes como a inteligência artificial. Uma coisa é certa: tem funcionado muito bem.
Fontes: Apple Explained, Hackaday