Houve uma época em que falar em gigabytes era um sonho delirante. Em que o CD-ROM era uma coisa estranha de laboratório que queria substituir o vinil. Em que aquele que tinha um computador com tela colorida era algo como o deus do bairro. E entre os softwares, uma palavra se repetia a torto e a direito: Shareware. Os videogames não eram alheios a esse termo, e para muitos usuários, os primeiros títulos que rodaram em seus computadores pertenciam à categoria shareware. Nesta ocasião, faremos um repasse de sua história e mencionaremos alguns dos jogos mais importantes que foram distribuídos dessa forma.
Um sujeito avançava com uma pistola na mão através do que parecia ser um velho castelo, deixando nazistas sobre suas próprias poças de sangue. A pergunta foi curta: “O que é isso?” A resposta também: “Wolfenstein”. Dez minutos depois, quem estava jogando fez uma cópia do jogo em um disquete, e quem havia perguntado foi feliz para casa para experimentar. Não havia internet, os disquetes valiam uma fortuna, os discos rígidos eram para poucos privilegiados e o acesso aos BBS quase pertencia a outra dimensão.
Para conhecer um jogo, você precisava vê-lo pessoalmente, ler seu nome em um catálogo ou esperar pelas publicações mensais que faziam análises dedicando várias páginas. No entanto, o que hoje vemos como limitações e restrições simplesmente não eram nenhuma das duas coisas naquela época. A internet foi uma verdadeira revolução como canal de distribuição de programas e videogames, mas antes, tínhamos nossos disquetes formatados e verificados, encontros de amigos em pequenas cavernas de informática e, claro, tínhamos o shareware.
A história dos jogos shareware
A história diz que o primeiro exemplo de shareware foi o PC-Talk, um programa de comunicações para DOS criado em 1982 pelo falecido (ou tecnicamente desaparecido) Andrew Fluegelman, amplamente reconhecido como fundador da PC World e da Macworld. O PC-Talk foi apresentado usando uma palavra curiosa: Freeware. Essa palavra fala de um tipo de licença que buscava “estimular” os usuários a fazerem pagamentos voluntários pelo programa e permitia sua cópia irrestrita, desde que os termos e o texto da própria licença não fossem alterados. Pouco tempo depois surgiram mais dois programas: PC-File e PC-Write, banco de dados e processador de texto, respectivamente. O primeiro usou o termo “Software apoiado pelo usuário”, enquanto o segundo adotou plenamente a palavra “Shareware”.
Ambos casos foram particularmente chamativos. O responsável pelo PC-File, Jim Knopf, criou inicialmente o software sob o nome Easy-File para administrar a lista de correspondência de uma igreja. Eventualmente, o programa se tornou conhecido, as pessoas começaram a pedir cópias, e Knopf concordou com a condição de que ajudassem na distribuição e que aqueles satisfeitos com ele fizessem um pagamento voluntário. O mundo da informática era menor naquela época, e um usuário chegou a ter uma cópia tanto do PC-Talk quanto do Easy-File.
Knopf entrou em contato com Fluegelman e conversaram sobre como refinar esse método de distribuição que ambos estavam explorando. Eles concordaram em três pontos: ambos mencionariam o programa do outro na documentação, o Easy-File mudou seu nome para PC-File para uma melhor referência, e o valor da doação foi estabelecido em 25 dólares. A resposta foi impressionante. Naquela época, Knopf trabalhava para a IBM, mas chegou um ponto em que as receitas provenientes do PC-File superaram em dez vezes o seu salário no gigante azul.
Fluegelman, Knopf e Wallace ficaram conhecidos como os “três pais do shareware”
Pelo lado do PC-Write, seu criador Bob Wallace, conhecido como o “nono funcionário” da Microsoft, solicitava um pagamento voluntário de 75 dólares, mas havia algo mais. Se um usuário pagasse o valor, tinha acesso a um número de série que podia ser adicionado a todas as cópias que fizesse posteriormente.
Se outro usuário que recebia uma dessas cópias fizesse o mesmo pagamento, era solicitado, se existisse, o número de série. E a partir desse número, o usuário associado ao número de série recebia uma comissão de 25 dólares por cada cópia paga. Era um estímulo enorme para distribuir o PC-Write, mas o ponto mais importante era que o modelo funcionava.
Finalmente, foi necessário adotar uma espécie de “termo geral” para descrever o modelo. “Freeware” estava licenciado, “software apoiado pelo usuário” era incômodo. “Shareware” foi escolhido pela maioria dos usuários, e como Wallace não o tinha transformado em uma marca, deixou que fosse usado de forma geral. Assim, Fluegelman, Knopf e Wallace ficaram conhecidos como os “três pais do shareware”.
Agora, o modelo parecia funcionar com software “sério”, mas poderia ser aplicado aos videogames? Basicamente, a chave esteve no que hoje conhecemos como “conteúdo por episódios”. Várias empresas começaram a lançar jogos nos quais um jogador teria acesso a um “episódio completo”, que podia ser distribuído sem limitações, e fazer o pagamento correspondente habilitava o acesso ao restante dos episódios que formavam o jogo.
Um dos primeiros jogos sob esse método foi Kroz, criado por nada menos que a Apogee Software, que agora conhecemos melhor como 3D Realms. A partir daí vieram jogos que definitivamente marcaram nossas vidas. A lista que daremos a seguir não se qualifica como Top 10 nem nada parecido, mas busca dar uma espécie de “representação” ao amplo mercado que nasceu com os jogos shareware, embora devamos reconhecer que Apogee, id Software e posteriormente 3D Realms tinham uma presença impressionante.
Kroz (1987)
Embora já tivessem lançado shareware antes, Kroz foi o que basicamente iniciou tudo para a galera da Apogee, pois eles “inverteram” o modelo de shareware. Kroz tinha vários episódios (sendo o primeiro gratuito) e, em vez de esperar a doação por parte do usuário, eles o incitavam a pagar para obter o restante do jogo.
Commander Keen (1990)
Com um capacete do Green Bay Packers e um QI impressionante, o jovem Billy Blaze se torna o Commander Keen, que deve batalhar contra seu arqui-inimigo Mortimer através da galáxia, e com um total de sete episódios. O desenvolvimento foi da id Software, enquanto a Apogee cuidou da publicação.
Lemmings (1991)
Quem em sã consciência não poderia deixar de mencionar os Lemmings? A versão shareware tinha apenas quatro níveis de um total de 120, mas esses quatro eram mais que suficientes para te tornar um viciado. A grande quantidade de jogos baseados nos Lemmings que vieram depois é prova disso.
Wolfenstein 3D (1992)
Honestamente, não precisa de apresentação. A aventura original de B. J. Blazkowicz provavelmente tenha sido o “primeiro shareware” para uma gigantesca quantidade de usuários. Hans Grosse era apenas o primeiro chefe do jogo. O restante dos episódios leva o jogador através de vários castelos e terríveis inimigos, um deles sendo o próprio Hitler.
Cannon Fodder (1993)
Provavelmente vocês tenham se esquecido deste, mas quando vimos pela primeira vez Cannon Fodder, não pudemos fazer outra coisa além de pedir mais. Viciante, com excelentes gráficos para a época, e alguns níveis de pesadelo que nos faziam voltar uma e outra vez. E claro, controverso, mas os críticos não tinham ideia do que estava por vir.
Doom (1993)
“Vamos, marine, a base está cheia de demônios, suas armas fedem, e o Inferno espera do outro lado. Ah, mais uma coisa: Você está sozinho nessa.” Pessoalmente, não acredito que a id Software tenha ao menos imaginado o que alcançaria com Doom. A barra de qualidade não havia sido elevada: a tinham colocado em um foguete e enviado a Marte. Wolfenstein 3D pode ser o pai dos “3D shooters”, mas Doom impôs o padrão.
Descent (1995)
A história revela que o shareware de Descent foi lançado em dezembro de 1994, enquanto sua versão final chegou em março de 1995. Os tiros continuam, assim como os gráficos 3D, mas em vez de representar um soldado solitário, Descent colocava o jogador a bordo de uma nave. E a missão não era apenas vencer o inimigo, mas também escapar antes que tudo explodisse...
Rise of the Triad (1995)
Assim como aconteceu com Descent, o shareware de Rise of the Triad foi lançado em 1994, mas seu lançamento oficial chegou em fevereiro do ano seguinte. No início, tinha sido planejado como uma sequência para Wolfenstein 3D (usava o mesmo motor gráfico), no entanto, Rise of the Triad conseguiu ganhar seu lugar por conta própria, e as partidas multiplayer por LAN eram excelentes. Dizem que terá um “reboot”. Será verdade?
Duke Nukem 3D (1996)
A Apogee mudou seu nome para 3D Realms, mas manteve Duke Nukem como um de seus personagens principais, e assim nasceu Duke Nukem 3D como sequência dos dois títulos anteriores. Extraterrestres, mulheres semidespidas, humor ácido e um formidável modo multiplayer fizeram de Duke Nukem 3D um sucesso, e seu shareware chegou a quase todos os lugares. Quinze anos depois apareceu DNF... e teria sido preferível que o tivessem cancelado.
Quake (1996)
Não eram poucos os que acreditavam que a id Software não conseguiria superar o que havia alcançado com a saga Doom. E foi exatamente isso que ela fez com Quake. Quando vi seu shareware pela primeira vez, não acreditava que existisse computador que pudesse executá-lo, e não estava tão longe, para falar a verdade. O primeiro da saga, Quake foi uma obra-prima em todos os sentidos. Agora, a barra de qualidade já estava em outra galáxia.
Que se estou deixando de fora outros títulos? Por onde começar...? Shadow Warrior, Heretic, Blake Stone, Blood, Terminal Velocity, Bio Menace... e poderia continuar até o próximo fim de semana. Houve muito shareware por aí, mas com o passar dos anos, o termo caiu em desuso. Por quê? Porque além de seus inícios estelares, eram muito poucos os que pagavam por seu shareware.
O pagamento eletrônico estava engatinhando, as transferências internacionais custavam uma fortuna, e os tempos de espera para receber as versões completas eram assustadores. Os desenvolvedores abandonaram o termo e adotaram a “demo” para uso geral em suas amostras. Ainda assim, há jogos que jamais esqueceremos, e em nossas cabeças, continuarão sendo shareware. Boa sorte!