A Espanha encerrou em 10 de setembro de 2026 a consulta pública sobre um projeto de Real Decreto que condiciona novas conexões de data centers a requisitos de energia renovável, eficiência energética, uso da água e soberania digital. O texto ainda é uma proposta: não há confirmação de que tenha sido aprovado ou entrado em vigor.

Ainda é um projeto, não uma lei em vigor

A consulta tratou de instalações com pelo menos 1 MW de potência de acesso. Esse número se refere à capacidade solicitada no ponto de conexão com a rede, não à potência usada pelos equipamentos de tecnologia da informação.

A distinção é importante. Um data center pode ter uma carga de TI diferente da potência total considerada no acesso à rede, que também precisa atender sistemas de refrigeração, distribuição elétrica e outras cargas da instalação.

O que o projeto exigiria

A proposta combina quatro frentes: fornecimento renovável, desempenho energético, uso da água e controle operacional de determinados elementos digitais dentro da União Europeia.

A formulação divulgada para o projeto descreve, para novos data centers acima de 1 MW, 80% de cobertura renovável e 80% de correlação horária entre geração renovável e consumo. Também prevê que a capacidade renovável seja adicional — isto é, nova geração, e não apenas certificados ou contratos associados a usinas já existentes. O período de até 18 meses para a entrada em operação da instalação renovável também aparece como uma condição do texto em discussão.

Esses percentuais e o prazo pertencem ao projeto em debate, não a uma obrigação definitiva já aplicável na Espanha.

O texto ainda estabelece parâmetros de eficiência:

DimensãoParâmetro descrito no projetoImplicação prática
Potência de acessoPelo menos 1 MWDefine o alcance principal para novas conexões de data centers
Eficiência energéticaPUE máximo de 1,15, em caráter transitórioLimita a energia adicional usada por refrigeração, distribuição e demais sistemas em relação à carga de TI
Eficiência hídricaWUE máximo de 0,1, em caráter transitórioRelaciona o uso de água à operação da instalação
Divulgação de desempenhoPelo menos 500 kW de potência de TIExige informações sobre energia, fontes renováveis, pegada hídrica e demanda

PUE é a razão entre a energia total consumida pelo data center e a energia usada diretamente pelos equipamentos de TI. WUE relaciona o consumo de água à carga de TI. Em ambos os casos, números menores indicam menos recursos adicionais para manter a infraestrutura funcionando.

Por que a correlação horária é o ponto mais difícil

Espanha fecha consulta para regra de energia renovável em data centers

Comprar energia renovável ao longo de um ano não significa necessariamente que uma instalação consumiu eletricidade renovável no momento em que a demanda ocorreu. A correlação horária tenta fechar essa diferença: a geração precisa acompanhar o consumo em cada hora considerada.

É aí que a matemática do data center fica menos confortável. Servidores e sistemas de refrigeração tendem a operar continuamente, enquanto a produção solar varia com a luz do dia e a eólica depende das condições do vento. Um contrato anual pode cobrir o volume total e ainda deixar horas em que a geração renovável não acompanha a carga.

Para atender a uma regra desse tipo, operadores podem combinar geração no local, autoconsumo e contratos de compra de energia ligados a novas instalações renováveis na Espanha. Mas a geração variável não elimina a necessidade de rede, armazenamento, capacidade de equilíbrio ou outras formas de fornecimento para as horas de menor produção.

A capacidade da rede e a demanda projetada

O pano de fundo da proposta é uma corrida por conexões elétricas. A Espanha havia concedido mais de 6 GW de capacidade de acesso à transmissão e cerca de 6 GW à distribuição para infraestruturas desse tipo. São categorias diferentes de acesso e não devem ser somadas a uma previsão de consumo como se medissem a mesma coisa.

A Estratégia de Inteligência Artificial 2024 projeta 2,5 GW de capacidade computacional até 2030, associados a aproximadamente 3,5–4 GW de demanda elétrica. A comparação ajuda a explicar a preocupação do governo: pedidos de conexão podem representar uma carga potencial relevante, mesmo quando a demanda efetivamente consumida em uma determinada etapa ainda é outra medida.

MedidaValorEscopo e período
Acesso concedido à transmissãoMais de 6 GWData centers ou infraestruturas desse tipo na Espanha
Acesso concedido à distribuiçãoCerca de 6 GWConexões concedidas desde 2020
Demanda elétrica projetadaAproximadamente 3,5–4 GWDemanda associada à capacidade computacional projetada para 2030
Capacidade computacional projetada2,5 GWEstratégia de Inteligência Artificial 2024, com horizonte em 2030

A tabela não indica que toda a capacidade de acesso será consumida ao mesmo tempo. Ela separa a capacidade de conexão já concedida da projeção de demanda elétrica relacionada à computação, porque são métricas diferentes.

Água, armazenamento e custos para o sistema

A eletricidade é apenas uma parte do problema. O crescimento de data centers na Espanha também pressiona o planejamento de água, terrenos, subestações, linhas de transmissão e armazenamento. Instalações que funcionam continuamente precisam de um sistema capaz de lidar tanto com picos de demanda quanto com períodos de menor geração solar e eólica.

A preocupação é especialmente sensível em regiões agrícolas e sujeitas a estresse hídrico. Em Aragón, a expansão de grandes instalações gerou um debate local sobre o uso da terra e da água, enquanto governos regionais destacam a atração de infraestrutura digital. A proposta espanhola tenta colocar parte desse impacto dentro das regras de conexão, em vez de tratar o data center como um consumidor elétrico isolado.

Isso também explica a importância da adicionalidade. Se um novo campus simplesmente reservar certificados associados a uma geração que já existia, o contrato pode mudar a contabilidade do consumo sem aumentar a oferta física disponível para o sistema. A exigência de nova capacidade busca ligar o crescimento da demanda à expansão da geração — embora armazenamento, transmissão e equilíbrio continuem sendo necessários.

Para os consumidores, o ponto decisivo é quem paga pela adaptação. Reforços de rede, capacidade de reserva e gestão de períodos de baixa geração têm custos. O projeto procura fazer com que novas instalações de grande porte assumam mais responsabilidades, mas o efeito concreto dependerá do texto final e da forma como as regras forem aplicadas.

O que falta acontecer

A consulta pública terminou, mas o próximo passo depende da versão final do Real Decreto. O projeto pode mudar antes de uma eventual aprovação, inclusive nos detalhes sobre percentuais de energia renovável, correlação horária, adicionalidade, obrigações de eficiência e consequências do descumprimento.

O que já está claro é a direção da política: a Espanha quer atrair capacidade computacional ligada à inteligência artificial e à nuvem, mas não pretende tratar cada nova conexão como um problema exclusivo da rede elétrica. Para os operadores, isso significa que conseguir energia renovável não será apenas uma questão de comprar certificados ou fechar um contrato anual. A expansão terá de caber, ao mesmo tempo, na geração disponível, na rede, no armazenamento e nos recursos hídricos — e é essa conta que definirá quais projetos conseguirão avançar.