O estudo publicado online em 14 de setembro de 2026 analisou dados dos satélites GRACE e GRACE-FO para estimar mudanças no armazenamento terrestre de água — a água guardada no solo e sobre a superfície. Os pesquisadores identificaram 40 regiões com tendências associadas a atividades humanas, entre 94 regiões com mudanças significativas. A medida é uma estimativa por gravimetria de satélite, não uma leitura direta do nível da água em poços. O artigo publicado na PNAS analisa o período de abril de 2002 a novembro de 2025.

O que GRACE e GRACE-FO medem

Armazenamento terrestre de água, ou TWS (sigla em inglês para terrestrial water storage), reúne a água subterrânea e a que está na superfície terrestre. Por isso, uma mudança de TWS não equivale, por si só, a uma alteração do nível de água em um aquífero ou poço específico.

Os pesquisadores analisaram medições da variação da distância entre os satélites e usaram mudanças no campo gravitacional da Terra para estimar a redistribuição de massa. O método combinou observações dos dois programas: o GRACE, lançado em 2002, e o GRACE Follow-On (GRACE-FO), lançado em 2018. O mapa resultante teve resolução espacial de cinco a dez vezes maior que a de mapas tradicionais baseados em mascons mensais.

As regiões registraram perdas e ganhos

Das 94 regiões com tendências significativas de TWS, os autores identificaram 40 com associações espaciais significativas a fatores humanos. Entre eles estão irrigação com água subterrânea ou superficial, agricultura de sequeiro, desmatamento e represamento de água em reservatórios. No conjunto dessas 40 regiões, as perdas acumuladas somaram 3.122 Gt, enquanto os ganhos chegaram a 2.432 Gt.

As tendências também variaram de uma região para outra. O estudo estimou uma queda de 32,4 ± 4,0 Gt por ano no norte da Índia; ao descontar a perda de massa das geleiras, a estimativa foi de 27,5 Gt por ano. No Planalto Brasileiro, a tendência foi de queda de 24,3 ± 2,5 Gt por ano. Para o Oriente Médio e o norte da África, a estimativa de perda foi de 42,0 ± 7,7 Gt por ano. São tendências de TWS, que abrange mais do que a água subterrânea.

O que significam 33%, 52% e 45%

Os três percentuais vêm de comparações diferentes. Cada um tem uma referência própria:

ResultadoComparaçãoEscopo
Tendências 33% maiores, em médiaMétodo do estudo versus regressão tradicional de produtos mensais de masconsMagnitude das tendências regionais
Tendências 52% maioresMétodo do estudo versus regressão tradicional de produtos mensais de masconsSete regiões com menos de 100.000 km²
Estimativas anteriores 45% menores, em médiaEstudo versus estimativas publicadas anteriormenteDeclínios de TWS associados à extração de água subterrânea

A incerteza média informada para as estimativas regionais destacadas foi de ±28% da magnitude das tendências. O estudo também encontrou influência humana significativa na variação espacial de TWS em todos os continentes não polares, com exceção da Austrália. Isso descreve associações observadas no conjunto analisado; os fatores considerados incluíram também precipitação, déficit de pressão de vapor e perda de massa glacial. Os autores observam que relações estatísticas locais podem não captar efeitos hidrológicos que vêm de outras áreas, como barragens a montante, desvios de rios e aquíferos conectados.

Como contexto para a diferença entre estoque e tendência, estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indicam que a água subterrânea doce corresponde a cerca de 30,1% da água doce do planeta e 0,76% de toda a água da Terra. Essas proporções descrevem o estoque global, enquanto o estudo de GRACE e GRACE-FO estima mudanças no armazenamento terrestre ao longo do tempo. O USGS apresenta a distribuição da água na Terra.