A história costuma citar a Xerox como o “berço” da interface gráfica e a revolução iniciada pela Apple com seu Macintosh (com direito a lançamento com martelo), mas a verdade é que não foram os únicos concorrentes na corrida para otimizar o perfil visual dos computadores. Isso nos leva à Digital Research, nome mais conhecido pelo DR-DOS, que em 1984 começou o desenvolvimento do GEM, ou Graphics Environment Manager, um ambiente operacional destinado a sistemas com chips Intel e o clássico Motorola 68000, incluindo a linha Atari ST.

GEM: conheça o ambiente gráfico para DOS que precedeu o Windows
GEM

As origens do GEM

A aventura do GEM começou na segunda metade de 1984, como uma espécie de salto evolutivo da biblioteca GSX (Graphics System eXtension), desenvolvida por Don Heiskell e Lee Lorenzen, vindos do próprio Xerox PARC, e responsável por boa parte do código. Por sua vez, o GSX era uma implementação do Graphical Kernel System, o primeiro padrão ISO para gráficos de computador de baixo nível, publicado em 1977.

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A versão 1.1 do GEM (abril de 1985), com suporte para gráficos EGA

O GSX permitiria à Digital Research criar programas gráficos destinados às principais plataformas de 8 e 16 bits da época, incluindo as diferentes versões do CP/M e o MS-DOS. A variante de 16 bits do GSX 1.3 foi a que se transformou no GEM, e sua compilação 1.0 chegou às mãos dos OEMs em 28 de fevereiro de 1985, nove meses antes do Windows 1.0 (20-11-1985) e cinco meses antes de a Commodore apresentar seu Amiga 1000 com AmigaOS integrado (23-07-1985). Também se antecipou ao IBM TopView por alguns dias, mas é importante destacar que o TopView funcionava principalmente em modo texto.

Licenças e processos

Obviamente, o GEM tinha uma tarefa titânica pela frente: convencer os usuários reproduzindo um ambiente visual muito semelhante ao do Macintosh no hardware do IBM PC, e convencer tanto fabricantes quanto desenvolvedores a adotá-lo. Para isso, a Digital Research organizou um seminário antes do lançamento oficial, no qual explicou os detalhes técnicos do GEM, mas seus representantes iniciaram uma crise de marketing ao confirmar que o software só funcionava em hardware IBM, deixando os clones compatíveis fora da equação. Por quê? Simples: a Digital Research queria que os OEMs pagassem uma licença para ter acesso ao suporte.

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A edição de junho de 1985 da revista BYTE, descrevendo o momento em que a DRI revelou a falta de suporte para clones no GEM

A resposta dos desenvolvedores foi contundente: ninguém tocaria no GEM se ele não funcionasse em equipamentos alternativos populares (por exemplo, os computadores Compaq). O próprio Gary Kildall, presidente e fundador da Digital Research, teve de sair para acalmar os ânimos, mas não tiveram outra opção senão recuar com a restrição.

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Obviamente, a Apple tinha uma ou duas coisas a dizer sobre o GEM e acabou forçando várias mudanças (ComputerWorld, 7 de outubro de 1985)

Como se não bastasse, a Apple saiu ao encalço da Digital Research com um princípio de processo, reclamando do “look and feel” do GEM. A Digital Research jamais admitiu violação de copyright, mas mesmo assim chegou a um acordo com Cupertino: um pagamento em dinheiro, a retirada da primeira versão do GEM e várias reformas gráficas para a versão 2.0. A compilação conhecida como GEM Desktop 2.0 estreou em março de 1986 com suporte a VGA, ícones modificados e vários bugs corrigidos.

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GEM Desktop 2.0, a versão “anti-processos” com alguns ajustes na interface

GEM no Atari ST

A última versão de varejo do GEM foi o GEM/3 Desktop em novembro de 1988, e com ela encerraram suas vendas comerciais. Já em janeiro daquele ano, o GEM era discutido como uma vítima da falta de liderança na Digital Research, com uma estratégia de marketing deficiente. Mais além de certos detalhes técnicos (que podiam ser resolvidos), como a ausência de uma boa interface de teclado, o GEM encontrou terreno mais firme na linha de computadores Atari ST, sob o nome Atari TOS.

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Atari TOS 1.00 em modo monocromático

O Atari TOS é o resultado do ambiente gráfico do GEM, executando sobre um equivalente do DOS chamado GEMDOS. A ideia original era usar o GEM sobre o CP/M-68K, do qual a Digital Research já havia criado um port para os computadores ST. No entanto, seu estado técnico era bastante pobre e precisaria de uma grande quantidade de desenvolvimento adicional.

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A versão vazada do TOS 4.92, com idioma em alemão

A segunda oferta da Digital Research foi o GEMDOS. A Atari decidiu seguir esse caminho com um port do GEMDOS para o Atari ST e, como ficou responsável pela maior parte do desenvolvimento para a versão 68000, pôde continuar seu trabalho no Atari TOS sem depender de licenças adicionais da Digital Research e sem enfrentar a fúria legal da Apple. A linha Atari ST se estendeu de 1985 até 1993 e encontrou vários focos de popularidade, especialmente no mundo da música.

GEM atualmente

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Captura do OpenGEM, versão 5

A Caldera comprou o pouco que restava da Digital Research em 1996, mas os planos de reviver o GEM nunca se materializaram. Em vez disso, a empresa decidiu liberar o código do GEM sob GPL 2.0 em 1999. Isso deu origem a variantes para PC como FreeGEM e OpenGEM, facilmente localizáveis com um pouco de Google-fu. No caso do Atari ST, a melhor alternativa é buscar uma cópia do clone EmuTOS e usá-lo em hardware real, ou em um emulador compatível como o Hatari.

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O EmuTOS funciona em hardware real e em emuladores do Atari ST