Em 14 de setembro de 2026, uma pesquisa conduzida por Benjamin Shultz para a Agora Digitale Transformation identificou referências a ao menos 138 deputadas e nove deputados nacionais em cerca de 160 domínios associados a deepfakes sexuais e conteúdo íntimo não consensual. O levantamento alcançou 5.872 parlamentares dos 27 países da União Europeia e apontou que as deputadas tinham 33 vezes mais probabilidade de serem alvo dentro do ecossistema estudado.

Um retrato de um ecossistema de abuso

A pesquisa foi feita sobre parlamentares de câmaras nacionais. Integrantes do Parlamento Europeu ficaram fora do recorte. Entre os países analisados, 22 tiveram parlamentares referenciados ou retratados nos domínios examinados; Alemanha, Países Baixos, Itália e França concentraram os maiores números de políticos identificados.

O resultado não corresponde a uma contagem de vídeos atualmente acessíveis. O levantamento reuniu três tipos de ocorrência: material hospedado nos próprios sites, páginas ainda indexadas embora o conteúdo já tivesse sido removido e perfis ou portas de entrada que conectavam biografias e imagens a ferramentas capazes de gerar material sexualizado.

Essa distinção importa. Uma pessoa listada em um perfil ou em uma página indexada não representa necessariamente um vídeo explícito disponível naquele momento. Os números medem a presença de parlamentares dentro do ecossistema pesquisado, não a quantidade de arquivos distintos em circulação.

O que os números contam

Benjamin Shultz compilou uma base com 5.872 parlamentares nacionais e aplicou mecanismos de busca personalizados ao conjunto. A análise encontrou:

  • ao menos 138 deputadas referenciadas ou retratadas;
  • nove deputados referenciados;
  • parlamentares de 22 países da União Europeia;
  • cerca de 160 domínios relacionados a abuso com deepfakes e conteúdo sexual não consensual.

Shultz calculou que as deputadas eram 33 vezes mais propensas a ser alvo dentro desse ecossistema. A proporção se refere ao universo pesquisado, e não ao risco de todas as mulheres que ocupam cargos políticos.

Suzanne Kröger e Sarah Dobbe, deputadas neerlandesas identificadas como vítimas, descreveram o uso desse material como uma forma de intimidação e desqualificação de mulheres. Benjamin Shultz também alertou que a prática pode afastar mulheres da política e empurrar parlamentares para fora da vida pública.

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O abuso não depende apenas de a montagem ser convincente. Imagens sexualizadas associadas ao nome de uma política podem ser usadas para humilhá-la, desgastar sua reputação e transformar sua presença pública em um alvo permanente. A circulação também pode alcançar pessoas que não têm familiaridade suficiente com inteligência artificial para reconhecer uma falsificação.

O efeito político aparece justamente aí: se a exposição sexualizada vira um custo previsível da atuação pública, ela pode influenciar quem decide se candidatar, permanecer no cargo ou falar sobre temas controversos. O levantamento não mede uma queda geral na participação feminina, mas as especialistas ouvidas no debate descrevem o abuso como uma ferramenta de intimidação com impacto sobre a representação democrática.

As páginas que funcionam como intermediárias ampliam esse risco. Na descrição de Shultz, algumas reúnem imagens e informações biográficas e conduzem o usuário até uma ferramenta de geração. Henry Ajder, consultor de inteligência artificial, caracterizou esse mercado como uma infraestrutura organizada para operar em escala, e não apenas como uma sucessão de ataques isolados.

O cenário mudou desde a coleta

O levantamento foi compilado em julho de 2026. Antes da publicação da investigação, pelo menos meia dúzia dos domínios identificados havia sido removida. Isso alterou a quantidade de material acessível, mas não muda o registro da pesquisa sobre o ecossistema encontrado durante a análise.

Shultz também avisou individualmente parlamentares afetados e forneceu orientações sobre caminhos para tentar remover o material. Sarah Dobbe defendeu apoio direto às vítimas e remoção rápida do conteúdo, além de medidas para responsabilizar as plataformas e limitar o uso de ferramentas de nudez artificial.

A resposta regulatória é mais ampla que uma única regra

Na União Europeia, regras de transparência do AI Act entraram em vigor em agosto de 2026, conforme a Comissão Europeia. O Digital Services Act acrescenta obrigações de transparência e responsabilização para plataformas. Esses instrumentos integram a resposta regulatória europeia, mas não equivalem, por si só, a uma remoção imediata de todo deepfake sexual em todos os países do bloco.

Nos Estados Unidos, o TAKE IT DOWN Act tornou-se a Public Law 119-12 em 19 de maio de 2025. A lei estabeleceu uma proibição criminal com efeito imediato e obrigações de remoção para plataformas abrangidas após uma notificação, incluindo um prazo de 48 horas descrito na legislação e em sua análise oficial.

Para Kröger, retirar rapidamente as imagens e regular as ferramentas são frentes inseparáveis. A pesquisa mostra por que a resposta não se resume ao arquivo final: ela também precisa alcançar as páginas que catalogam vítimas e os serviços que facilitam a criação de novas falsificações.