A Nvidia estaria discutindo um investimento de até US$ 10 bilhões como investidora-âncora no possível IPO da Anthropic. As negociações são preliminares e podem mudar, mas o movimento colocaria a fabricante de chips na posição incomum de possível acionista de uma empresa que também é uma grande cliente de infraestrutura para inteligência artificial.

A possível oferta da Anthropic é associada a uma avaliação próxima de US$ 2 trilhões e a uma captação de até US$ 100 bilhões. Esses números ainda pertencem ao campo das expectativas para a operação. A referência privada mais recente é uma avaliação pós-investimento de US$ 965 bilhões.

A Nvidia estaria considerando uma participação no IPO

A proposta em discussão não seria uma nova rodada privada de financiamento, mas uma compra de ações ligada à possível oferta pública inicial da Anthropic. Se avançar, a Nvidia teria exposição direta ao valor de mercado da desenvolvedora do Claude.

A Anthropic ainda é uma empresa privada, mas já tomou uma medida formal rumo ao mercado acionário: apresentou confidencialmente um rascunho do Formulário S-1 à U.S. Securities and Exchange Commission em 1º de junho de 2026. O documento é usado nos Estados Unidos para registrar uma oferta pública de ações.

Uma listagem na Nasdaq e uma possível janela em outubro de 2026 também foram associadas ao plano. A operação, porém, continua descrita como possível, e não como um IPO concluído.

A referência privada é de US$ 965 bilhões

O marco financeiro mais sólido da Anthropic é a rodada Series H anunciada em 28 de maio de 2026. A empresa levantou US$ 65 bilhões, chegando a uma avaliação pós-investimento de US$ 965 bilhões.

A cifra próxima de US$ 2 trilhões representa uma expectativa para uma eventual negociação no mercado público, não o valor por ação da oferta. Avaliação é o valor implícito de toda a companhia; preço do IPO é o valor atribuído a cada ação. Para calcular a relação entre os dois, ainda seriam necessários o número de ações e a faixa de preço da operação.

A Anthropic também teria superado um ritmo anualizado de receita de US$ 65 bilhões no fim de julho de 2026. O run rate anualiza o ritmo observado em determinado momento; portanto, não equivale à receita anual auditada.

O artigo anterior da empresa sobre o IPO também registrava um ritmo anualizado superior a US$ 47 bilhões em maio de 2026 e uma receita trimestral preliminar acima de US$ 11,5 bilhões no segundo trimestre. São métricas de períodos e naturezas diferentes: uma anualiza o ritmo, outra cobre três meses.

Uma projeção interna atribuída à Anthropic colocava a receita de 2028 entre US$ 190 bilhões e US$ 200 bilhões. A projeção é uma estimativa futura, não receita realizada, e suas premissas não foram detalhadas publicamente.

Por que o papel da Nvidia chama atenção

A Nvidia já é uma fornecedora central dos processadores usados no treinamento e na operação de sistemas de inteligência artificial. Ao investir em uma cliente importante, a empresa poderia ganhar tanto exposição financeira ao crescimento da Anthropic quanto uma relação estratégica mais estreita.

É aí que surge a pergunta sobre o financiamento circular. Se parte da expansão futura da Anthropic depender de infraestrutura equipada com chips da Nvidia, um investimento da própria fabricante poderia ajudar a financiar uma empresa cuja demanda também sustenta os negócios da Nvidia. Isso não prova, por si só, a qualidade ou a duração dessa demanda, mas muda a forma como investidores podem avaliar a relação entre capital e consumo de computação.

Além da possível compra de ações no IPO, uma relação de infraestrutura entre as empresas já foi associada a um investimento de até US$ 10 bilhões da Nvidia e a um compromisso da Anthropic de adquirir US$ 30 bilhões em capacidade do Microsoft Azure equipada com tecnologia da Nvidia. As duas operações têm naturezas diferentes: uma possível participação acionária não é o mesmo que uma contratação de capacidade computacional.

O conflito entre desacelerar a IA e financiar crescimento

O plano financeiro aparece ao lado de uma discussão sobre o ritmo de desenvolvimento dos modelos mais avançados. Dario Amodei, cofundador e diretor-presidente da Anthropic, defendeu publicamente uma desaceleração no desenvolvimento de sistemas de fronteira.

Ao mesmo tempo, a possível oferta depende de uma história de crescimento acelerado, receitas futuras e investimentos contínuos em chips, centros de dados, treinamento e operação dos modelos. A tensão está menos em uma contradição formal do que na combinação entre pedidos de maior controle tecnológico e a necessidade de financiar uma expansão cara.

Requisitos mais rigorosos de segurança, avaliação e proteção também podem favorecer empresas com mais recursos para cumprir essas exigências. Para a Anthropic, isso reforça a importância de transformar o crescimento do Claude e dos serviços corporativos em receita duradoura, sem perder de vista o custo da infraestrutura necessária para manter os modelos competitivos.

O que pode aparecer em um S-1 público

Se a Anthropic avançar com a oferta, um S-1 público deverá detalhar demonstrações financeiras, fatores de risco, estrutura acionária, governança, faixa de preço, número de ações e cronograma da operação.

Por enquanto, o que está definido é o passo formal de 1º de junho, a avaliação privada de US$ 965 bilhões após a Series H e a discussão reportada sobre um possível investimento da Nvidia de até US$ 10 bilhões. A avaliação próxima de US$ 2 trilhões, a captação de até US$ 100 bilhões e a janela de outubro permanecem ligadas ao plano potencial do IPO.