Em 10 de dezembro de 1993, Doom tomou o mundo de assalto. O modelo shareware permitiu que seu primeiro episódio chegasse a milhões de computadores sem custo — e muitos desses computadores estavam conectados em rede. Empresas, escolas e universidades inteiras se tornaram campos de batalha virtuais. As pessoas deixaram de estudar e trabalhar (id Software avisou isso na época), mas Doom também pôs em xeque todas essas redes, e algumas instituições se viram obrigadas a estabelecer limites, ou proibir o jogo diretamente, como foi o caso da Intel.
Doom, o caos das redes LAN
O anúncio de imprensa oficial para a versão original de Doom remonta a 1º de janeiro de 1993. Nesse texto, a id Software explica várias virtudes do jogo, incluindo a possibilidade de combinar até quatro jogadores em uma rede local, ou dois via modem/cabo serial. O anúncio acrescenta: «Em 1993, esperamos ser a causa número um de perda de produtividade ao redor do mundo». E não é que foram.
A melhor fonte para explorar esses casos é o livro Masters of Doom: How Two Guys Created an Empire and Transformed Pop Culture, de David Kushner. Um deles vem da Universidade Carnegie-Mellon: poucas horas após o lançamento, o administrador publicou um aviso online solicitando que os usuários não jogassem Doom em modo rede, já que as partidas causavam uma perda massiva de desempenho, levando a rede do campus a uma parada total. Se não cumprissem, seriam obrigados a desconectar qualquer equipamento que estivesse rodando Doom em modo rede. A Universidade Agrícola e Mecânica do Texas (Texas A&M) teve que apagar o Doom de seus servidores. Na Universidade de Louisville, um supervisor cansado de ver gente correndo para o laboratório de informática para jogar acabou criando um programa que purgava automaticamente os arquivos do jogo. A Lotus Development havia proibido a instalação de Doom em seus sistemas (o que foi obviamente ignorado), mas as partidas de rede começavam depois das seis da tarde.
Finalmente, a Intel publicou em dezembro de 1993 um memorando interno com alcance para toda a empresa, anunciando a proibição do Doom. Isso aconteceu depois que várias sub-redes caíram durante o horário do almoço, um período que os funcionários aproveitavam ao máximo para organizar partidas de deathmatch. Agora, o problema não era só de produtividade, mas também técnico: a versão original do Doom usava broadcast packets que forçavam cada sistema na rede a transferir o pacote para a memória e analisá-lo antes de descartar seu conteúdo. Em outras palavras, cada computador tinha que processar os dados do Doom mesmo quando não estava executando o jogo. A id Software corrigiu esse detalhe com o patch para a versão 1.2, e o Doomguy continuou dominando as redes LAN por muito mais tempo.
Fontes: Doom Wiki e Computer Gaming World Museum.