John Ronald Reuel Tolkien nasceu no que hoje é a África do Sul, mas nunca houve dúvidas sobre sua cidadania britânica. No entanto, a raiz alemã de seu sobrenome ganhou relevância quando, em 1938, a editora alemã Rütten & Loening expressou seu desejo de traduzir «O Hobbit» para o alemão. Tudo parecia bem encaminhado, mas havia um detalhe: a editora pediu a Tolkien que provasse seu sangue ariano…
A história de Rütten & Loening
A história nos diz que Rütten & Loening foi formada em Frankfurt por dois judeus alemães, Joseph Rütten e Zacharias Löwenthal, depois conhecido como Karl Friedrich Loening. Em 1936, os donos da editora, Wilhelm Ernst Oswalt (sobrinho de Rütten) e Adolf Neumann, foram declarados culpados de quebrar as «Leis de Nuremberg» baseadas no racismo e no antissemitismo. Oswalt se havia convertido ao Protestantismo e batizado seus filhos, mas não foi suficiente: ante o olhar nazista, eram todos judeus, e os judeus não podiam publicar livros.
Oswalt e Neumann foram forçados a vender sob as «instruções» da Reichsschrifttumskammer, subdivisão da «Câmara de Cultura» do Reich. Neumann conseguiu escapar para a Suécia, mas Oswalt morreu nos campos. Dessa forma brutal, os nazistas assumiram o controle de Rütten & Loening, o que nos leva ao verão de 1938. «O Hobbit» estava há quase um ano nas estantes, e a editora (agora completamente alinhada com os desejos e as leis do Reich) queria publicar sua tradução para o alemão... mas também pediram a Tolkien que provasse se era ariano.
A princípio, o editor britânico de Tolkien, Stanley Unwin (da Allen & Unwin), estava muito interessado em fechar o acordo. No entanto, Tolkien tinha uma ou duas coisas a dizer, e começou com uma resposta ao seu editor, enviada em 25 de julho de 1938. A tradução a seguir é a mesma do livro «Cartas», editado por seu biógrafo Humphrey Carpenter, com a colaboração de Christopher Tolkien:
Devo dizer que a carta de Rütten & Loening que você me anexa é um pouco rígida. Tenho que suportar essa impertinência porque carrego um sobrenome alemão, ou a lunática lei que os rege exige um certificado de posse de uma origem «arisch» por parte de todas as pessoas de todos os países?
Pessoalmente, eu me sentiria inclinado a recusar uma Bestätigung (embora possa fazê-lo) e atrasar a tradução para o alemão. De qualquer modo, objetaria fortemente que tal declaração aparecesse impressa. Não considero a (provável) ausência de todo sangue judeu como necessariamente honrosa; tenho numerosos amigos judeus e lamentaria dar qualquer fundamento à ideia de que subscrevo a doutrina racista, perniciosa e totalmente anticientífica.
Você é o principal implicado e não posso pôr em risco a oportunidade de uma publicação alemã sem sua aprovação. De modo que lhe apresento dois rascunhos de possíveis respostas.
(N. do R.: Bestätigung significa «confirmação»)
O primeiro dos rascunhos confirmava a recepção da solicitação, e a ignorava. O segundo, por assim dizer, tirava as luvas. Todos os interessados poderão encontrar a cópia exata da carta original no link ao final do artigo, ou desfrutar de sua tradução, também publicada em «Cartas»:
Prezados senhores:
Obrigado por sua carta... Lamento não ter muito claro a que se referem com «arisch». Não sou de extração ariana: isto é, indo-iraniana ; que eu saiba, nenhum dos meus antepassados falava indostano, persa, cigano ou qualquer outro dialeto afim. Mas se devo entender que querem saber se sou de origem judia, só posso responder que lamento não poder afirmar que tenho antepassados que pertençam a esse dotado povo..
Meu tataravô chegou à Inglaterra vindo da Alemanha no século XVIII; a maior parte da minha ascendência, portanto, é puramente inglesa, e sou súdito da Inglaterra; isso deveria bastar. No entanto, acostumei-me a considerar meu sobrenome alemão com orgulho, e continuei a considerá-lo assim durante todo o período da lamentável guerra passada, durante a qual servi no exército inglês. No entanto, não posso deixar de comentar que se averiguações impertinentes e irrelevantes dessa espécie tiverem de se tornar a regra em questões relacionadas à literatura, não está então distante o momento em que ter um sobrenome alemão deixe de ser fonte de orgulho.
A averiguação em que se envolvem sem dúvida obedece às leis do vosso próprio país, mas que estas devam ser aplicadas a súditos de outro Estado não é correto, ainda que tivessem (e não têm) a menor relação com os méritos da minha obra ou a conveniência da sua publicação, da qual parecem estar satisfeitos sem referência alguma à minha «Abstammung».
Confio em que encontrarão esta resposta satisfatória,
Atenciosamente,
J. R. R. Tolkien.
(N. do R.: Abstammung equivale a «ancestralidade», «ascendência»)
Infelizmente, não sabemos qual dos dois rascunhos chegou às mãos dos alemães, mas sabemos que «O Hobbit» nesse idioma teve que esperar quase vinte anos, estreando sob o título Kleiner Hobbit und der große Zauberer, com a tradução de Walter Scherf e a arte de Horus Engels.
Fonte: Flashbak