O avanço da COVID-19 abalou os alicerces da economia moderna, e quase todos concordam que as coisas não voltarão a ser as mesmas depois que a pandemia terminar. Grande parte desse impacto está sendo observado do outro lado do oceano, com um aumento recorde nos pedidos de seguro-desemprego. No entanto, a dívida não é apenas econômica ou social, mas também técnica. Um exemplo contundente disso ficou registrado no dia 4 de abril, quando Phil Murphy, governador do estado de New Jersey, solicitou abertamente voluntários com conhecimento de COBOL para lidar com seus mainframes.
Um pouco de história
Antes de começar, um breve repasse a sua história: o COBOL foi criado pelo comitê CODASYL em 1959, tomando como base a linguagem de programação Flow-Matic projetada por a própria Grace Hopper. Naquela época, o Departamento de Defesa queria uma linguagem de programação portátil, focada no processamento de dados. No início, o COBOL não passava de uma solução temporária, mas o Departamento decidiu forçar a mão dos fabricantes, e sua adoção se acelerou. Sua padronização chegou em 1968, recebeu quatro revisões desde então... e aqui estamos.
Para muitos programadores modernos, COBOL é como voltar ao telégrafo. As críticas se multiplicaram com o passar das décadas, e essencialmente o fizeram andar sobre fogo quando o famoso Y2K começou a fazer suas rondas midiáticas, mas o certo é que COBOL nunca foi para lugar nenhum, e continua sendo um elemento fundamental para o funcionamento correto de serviços em empresas e agências governamentais. A última prova disso chega como consequência de COVID-19, do colapso econômico e da perda massiva de empregos.
O pedido de voluntários
O governador de New Jersey, Phil Murphy, deu uma conferência de imprensa no dia 4 de abril, na qual destacou que dentro da sua «lista de voluntários» não precisam apenas de trabalhadores da saúde, mas que, devido aos «sistemas legados» que utilizam, têm que adicionar uma página para pessoas com «habilidades Cobalt» (sic). O governador não demorou a parabenizar sua equipe pelo excelente trabalho que estão fazendo, mas admitiu que possuem mainframes com mais de 40 anos, que haverá «muitos post-mortems», e que nessa lista estará «Como diabos chegamos aqui quando literalmente precisávamos de programadores Cobalt (sic)?»
A razão é, de certa forma, simples: a plataforma de processamento de pedidos de seguro-desemprego utiliza COBOL, e os pedidos aumentaram em 1.600 por cento. O Departamento de Trabalho e Desenvolvimento da Força de Trabalho de New Jersey informou que mais de 360.000 pessoas solicitaram ajuda financeira, e o número segue em ascensão.
Em resumo, esta é mais uma faceta da COVID-19 e seus efeitos: sistemas sobrecarregados que dependem de uma linguagem com mais de 60 anos nas costas, e que provavelmente não substituirão com o argumento de que vivemos «circunstâncias extraordinárias» ou algo parecido.
Fonte: The Register