Se a estratégia baseada em turnos tem um berço ou um ponto de partida, sem dúvida são os jogos de tabuleiro, e sua transição para os computadores acompanhou inevitavelmente o desenvolvimento tecnológico. Mas em 1991 tudo mudou para sempre com a estreia de Civilization, desenvolvido por Sid Meier e Bruce Shelley. Colocar um jogador no comando de uma civilização desde o seu início foi completamente revolucionário, estabelecendo um novo padrão de qualidade para o gênero que poucos conseguiram alcançar nas últimas décadas.
A categoria «4X» atribuída a um jogo de estratégia nos fala de «eXplorar, eXpandir, eXplorar e eXterminar». Em essência, se o objetivo do jogador é criar, desenvolver, manter e defender um império através da destruição absoluta dos seus oponentes um turno de cada vez, estamos diante de um 4X com todas as letras. Mas o gênero não é recente, e para encontrar suas origens precisamos viajar para o início dos anos 70, com o desenvolvimento de protótipos como Stellar Conquest, fonte de inspiração para o clássico Reach for the Stars de 1983.
Muitos desses «ancestrais» do 4X tiraram elementos de jogos de tabuleiro como o Risk, e com o passar do tempo foram se adaptando às vantagens e restrições das plataformas digitais. O Civilization de Sid Meier não foi exceção: tanto seu nome quanto o conceito de «árvore tecnológica» vêm do jogo de tabuleiro Civilization criado por Francis Tresham em 1980, mas graças à visão do próprio Meier e à habilidade natural de Bruce Shelley, o «novo» Civilization se transformou em algo único, um verdadeiro «antes e depois» no mundo dos videogames.
Civilization: Um turno a mais... apesar da MicroProse
Um dos detalhes mais chamativos no desenvolvimento do Civilization é que a MicroProse demonstrou grande resistência ao jogo. Para resumir uma longa história (o pessoal da Gamasutra conta com riqueza de detalhes), Sid Meier foi um dos cofundadores da MicroProse ao lado de Bill Stealey. Em 1990, o desejo de Stealey de migrar para o mercado de fliperamas levou Meier a vender sua parte na empresa, mas ele manteve sua posição criativa como uma espécie de contratante independente.
Até então, a MicroProse não fazia mais do que lançar títulos de guerra e simuladores de combate. Alguns deles foram muito bem-sucedidos, como as séries F-15 Strike Eagle e F-19 Stealth Fighter, mas Meier já havia demonstrado com Pirates! (1987) e Railroad Tycoon (1990) que tinha potencial para explorar outros gêneros. Stealey queria continuar produzindo jogos de guerra (afinal, ele fora piloto da Força Aérea), e chegou a cancelar uma sequência para Railroad Tycoon.
Por sorte, Meier encontrou um parceiro de estrada em Bruce Shelley, que tinha se juntado à MicroProse em 1988. A experiência anterior de Shelley ao projetar «1830: The Game of Railroads and Robber Barons» sob a asa da Avalon Hill (a editora americana do Civilization de 1980) foi essencial para que Railroad Tycoon chegasse a bom porto, e a dinâmica programador-testador entre os dois criou um círculo virtuoso. Ainda assim, eles tiveram que aceitar um compromisso: Stealey pediu que terminassem Covert Action antes de continuar. A administração da MicroProse havia reduzido a prioridade para os jogos de Meier (o vice-presidente não recebia bônus por seus títulos), e eles tiveram dificuldades para obter ajuda do departamento de arte.
Apesar dessas dificuldades e da falta de promoção oficial (mais uma vez, a MicroProse alocou muito pouco dinheiro para a publicidade de Civilization), o «boca a boca» entre os jogadores e os comentários em sistemas de BBS cuidaram do resto: Civilization se tornou «Jogo de Estratégia do Ano», e recebeu ports para múltiplas plataformas. A MicroProse até chegou a ganhar alguns prêmios pelo jogo, mas seu destino estava selado. A aventura com fliperamas foi um desastre, e a empresa tentou cobrir sua dívida com uma oferta pública, mas no final Stealey acabou vendendo a companhia para a Spectrum Holobyte em 1993.
«E se eu quiser no Windows?»
Democracia, monarquia, despotismo. Exploração, diplomacia, combate. Da Idade do Bronze à Teoria Atômica, os caminhos para o sucesso em Civilization são muitos, mas sempre terminam de duas formas: A destruição de todos os oponentes no mundo (algo mais fácil de alcançar em níveis básicos de dificuldade), ou a colonização espacial com a chegada de uma nave a Alfa Centauri. Em caso de dúvida, o manual oficial e a Civilopedia integrada (ambos desenvolvidos por Shelley) são inestimáveis, mas podem surgir tantas variáveis em uma partida que é difícil imaginar dois jogos idênticos. A influência de SimCity no desenvolvimento de Civilization foi muito importante, e encontramos muito de «god game» em seu interior. A micro-administração é a chave para vencer, e Civilization não oferece piedade nesse aspecto.
O verdadeiro problema é... que você não pode comprá-lo. O primeiro Civilization não está disponível em lojas digitais, e leva mais de sete anos na wishlist da GOG, mas nunca apareceu lá. Na verdade, nem mesmo sua página oficial, a página da Firaxis Games ou a loja da 2K têm uma solução viável. A única alternativa legal é procurar uma cópia original no eBay, mas ainda sonhamos com uma abertura de seu código. Até que isso aconteça... você já sabe o que fazer. Tudo por mais um turno.