Em outubro de 1990, três das mentes mestras da Lucasfilm, Ron Gilbert, Tim Schafer e Dave Grossman, lançaram no mercado uma aventura gráfica que ficou gravada a fogo nos corações e mentes de toda uma geração. Refiro-me a The Secret of Monkey Island, uma história inspirada na era de ouro da pirataria, que lança um entusiasta peculiar no centro da Ilha Mêlée, envolta em uma crise com piratas aterrorizados, um fantasma implacável, uma governadora fascinante em busca de reeleição, comerciantes sem escrúpulos e "especialistas" de habilidade duvidosa.
A aventura da Lucasfilm Games como desenvolvedora de videogames começou em maio de 1982, mas foi em 1985 que seus títulos iniciais chegaram ao mercado. Ballblazer e Rescue on Fractalus! fizeram parte da primeira onda, The Eidolon e Koronis Rift da segunda, e seria um erro não mencionar Habitat para Commodore 64, ancestral dos MMORPGs atuais. Porém, Lucasfilm é sinônimo de aventuras, e 40 anos depois, isso não mudou.
A primeira delas baseava-se em Labyrinth, clássico musical fantástico com Jennifer Connelly e o próprio David Bowie. Um ano depois (5 de outubro de 1987, para ser preciso), chegou a vez de Maniac Mansion, sucesso absoluto desde todos os pontos de vista, e que provavelmente visitaremos no futuro. Em 1988, a Lucasfilm publicou Zak McKracken and the Alien Mindbenders, e em 1989 retornou a outra franquia, Indiana Jones and the Last Crusade, demonstrando que é possível fazer bons jogos inspirados em filmes.
Em 1990, a Lucasfilm decidiu explorar território experimental com Loom, uma história muito mais adulta e sombria que o usual, que utiliza uma versão modificada do sistema SCUMM, substituindo verbos e ações por notas musicais. No entanto, em outubro do mesmo ano, a Lucasfilm voltou a um perfil mais colorido e humorístico para sua nova aventura: The Secret of Monkey Island.
The Secret of Monkey Island: Dê licença, Jack Sparrow, aqui vem Guybrush Threepwood
O jogo começa com a chegada de nosso herói, Guybrush Threepwood, à estranha Ilha Mêlée, com um único objetivo: tornar-se um pirata. Na superfície, Mêlée parece ser o lugar para essa atividade, mas o jovem Guybrush não demora a descobrir que a ilha está virtualmente paralisada. Por um lado, a governadora Elaine Marley busca sua reeleição, algo simples considerando que é a única opção disponível. Depois temos um xerife irritado e obcecado, Fester Shinetop, muito mais sinistro do que parece. E em terceiro lugar, encontramos todos os piratas em terra, assustados com as atividades do temível pirata LeChuck, transformado em um fantasma vingativo que aterroriza os mares.
LeChuck não só deseja reduzir a pirataria a zero para controlar tudo, mas também busca o amor (definitivamente não correspondido) da governadora Marley. A princípio, a governadora o convidou para jantar em sua mansão, mas diante de sua evidente obsessão e seus incessantes avanços, Elaine lhe disse "que caia morto", algo que aparentemente ele interpretou literalmente. Supõe-se (e é um grande "supõe-se") que LeChuck morreu em uma tempestade enquanto procurava o Segredo da Ilha dos Macacos para impressionar a governadora. A chegada de Guybrush a Mêlée, seu desejo de se tornar pirata e o interesse de Elaine pelo jovem aprendiz colocam nosso herói na mira de LeChuck quase imediatamente.
Concluídas as provas que transformam Guybrush em um pirata oficial e certificado (vencer a Sword Master, roubar o Ídolo de Múltiplos Braços da mansão da governadora e descobrir o tesouro escondido de Mêlée), a situação muda para pior: LeChuck sequestra a governadora e foge para a Ilha dos Macacos com ela. Seu próximo passo é obter um navio, o que exige falar com Stan, um vendedor trapaceiro e com péssima reputação, e com o lojista, que não daria crédito nem à própria mãe. Finalmente, Guybrush precisará de uma tripulação, e já sabemos que os piratas da ilha não querem saber de LeChuck, portanto, deverá procurar em lugares não muito comuns... como se houvesse algo comum em Mêlée.
O mais impressionante de tudo? Esta é apenas a primeira parte! Guybrush não só precisa chegar à Ilha dos Macacos apesar de sua tripulação (que no geral não serve para nada), mas também será obrigado a resolver um conflito entre um grupo de canibais e um ermitão louco chamado Herman Toothrot, e encontrar a maneira de destruir LeChuck e recuperar a governadora. Claro que... uma coisa é Guybrush ter um plano, e outra é Guybrush colocá-lo em prática.
A aventura pode ser complexa às vezes devido à sutileza ou ao timing exigido em certas soluções, e sofrer algumas instâncias de grind (por exemplo, aprender todos os insultos e suas respostas antes de enfrentar a Sword Master), mas The Secret of Monkey Island nunca perde o humor nem a dinâmica. Além disso, as múltiplas referências a jogos anteriores da Lucasfilm o tornam muito mais interessante, e sempre nos arrancam um sorriso quando menos esperamos.
«E se eu quiser no Windows?»
A edição especial de The Secret of Monkey Island com gráficos aprimorados e modo clássico incorporado está disponível em plataformas como GOG e Steam a preços muito acessíveis. Como alternativa, qualquer pessoa com acesso aos arquivos originais pode usar ScummVM (sem dúvida a melhor ferramenta para executar títulos da Lucasfilm/Lucasarts), ou usar DOSBox em sua configuração padrão de 3000 ciclos (o executável de Monkey Island apresenta erros em ambientes muito rápidos).
Depois de terminar o jogo, recomendo imediatamente seguir com sua sequência, LeChuck's Revenge, tão boa quanto a primeira aventura. Por quê? Porque isso o deixará pronto cronologicamente para enfrentar o novo título da franquia, Return to Monkey Island. A recepção da crítica especializada e do público tem sido excelente até aqui, nada surpreendente sabendo que o próprio Ron Gilbert esteve no comando do desenvolvimento. O que você está esperando? Volte ao Caribe com Monkey Island!