Em meados dos anos 90, a única forma eficaz de acessar a crescente e pujante World Wide Web era com um computador tradicional e um navegador dedicado. Para a grande maioria do público, isso significava absorver conhecimentos técnicos e conceitos avançados que, na prática, funcionavam como um filtro. Foi isso que deu origem ao projeto WebTV, cujo objetivo era adaptar os recursos da Web a um dispositivo muito mais familiar, como a televisão. “Internet na sala de estar”, com um controle remoto, e o mundo inteiro na tela…

WebTV: Internet para a televisão... em 1996!
Eric Havir - Flickr - CC BY-NC-ND 2.0

Não era simples. Poderia ser intuitivo para nós hoje, mas na verdade não era simples. Vamos pensar por um momento: Meados dos anos 90. O Windows avançava em sua conquista mundial. O computador pessoal havia começado a se instalar em muitos lares como “a novidade” ou “o futuro”... e custava uma fortuna. Um sistema de gama média-alta podia exigir 3.000 dólares ou mais naquela época, mas “explorar o mundo” a partir de um PC ainda pedia mais. Uma linha telefônica. Um modem. Um navegador web.

Web. “A Web”. “Internet”. Palavras e expressões que se repetiam a cada instante nos shows de tecnologia. Trabalhar na Web. Jogar na Web. Comunicar-se na Web. Pedir uma pizza na Web! Promessas imensas, quase mágicas. Mas o preço a pagar não era apenas econômico, mas também técnico.

Os computadores eram intimidadores, as pessoas não os conheciam. Alguns visionários conseguiram detectar esse problema. Um deles era Steve Perlman, mais lembrado pelo QuickTime e pelo serviço de streaming OnLive. Qual foi a sua solução? Adaptar o acesso à Web e seu conteúdo a um ambiente mais familiar, mais direto. Em outras palavras... levar a Web para a televisão.

WebTV Networks foi fundada pelo próprio Perlman, Bruce Leak e Phil Goldman em julho de 1995. Um ano depois, o dispositivo de acesso começou a circular, distribuído por gigantes como Philips e Sony. Mas o hardware era apenas uma parte da equação. Todo o conteúdo da Web precisava mudar, mutar para ser reproduzido em uma ampla gama de televisores. Em essência, WebTV precisava da sua própria versão da Web, implantada dentro de uma caixa de areia que, de certa forma, estava alinhada com o que a America Online fazia naqueles anos.

WebTV: Internet para a televisão... em 1996!
Tudo muito... familiar, não acha?

Apesar dos esforços, os resultados iniciais não foram bons. A experiência do usuário era pobre, as páginas tinham uma qualidade visual muito limitada, os tempos de carregamento se tornavam uma tortura, e até era complicado ler a Web em uma TV CRT. Mesmo durante apresentações públicas, os representantes da empresa eram obrigados a manobrar para minimizar o impacto das dificuldades técnicas. Se a isso somarmos o detalhe de que o usuário precisava usar o controle remoto para navegar... acho que podemos imaginar o resto.

Mas o potencial estava lá. A imprensa especializada sabia, e outras empresas também... com a Microsoft na liderança. Menos de oito meses após o lançamento, o gigante de Redmond colocou 425 milhões de dólares sobre a mesa e absorveu a WebTV Networks. No final de 1999, a WebTV tinha quase um milhão de usuários e chegou a recrutar estrelas como William Shatner para suas campanhas publicitárias.

No entanto, a Web não ficava parada. Era um alvo em movimento, que incorporava novas tecnologias a cada passo. A WebTV, em sua estrutura rígida e proprietária, descobriu-se incapaz de competir. A resposta da Microsoft foi uma transformação geral. WebTV se tornou MSN TV e entregou o hardware gratuitamente aos assinantes da rede MSN para que eles não abandonassem o serviço. A primeira e única atualização importante chegou em 2004 (MSN TV 2), com um perfil mais próximo do Xbox original e a incorporação do Internet Explorer.

WebTV: Internet para a televisão... em 1996!
WebTV, estilo Microsoft

Não foi suficiente. A WebTV contava com uma base de usuários bastante leal, mas toda a plataforma subia pela escada, enquanto a Web tomava o elevador. Em setembro de 2013, a Microsoft desligou definitivamente a MSN TV, com um pequeno detalhe: boa parte da visão da WebTV e do que foi aprendido durante sua existência encontrou um lugar de privilégio nos consoles Xbox. Muitos membros da equipe da WebTV participaram do desenvolvimento do Xbox 360, e se analisarmos por um instante, ainda resta um pouco de WebTV no Xbox One..

WebTV: Internet para a televisão... em 1996!
O teclado virtual do Xbox 360 em modo alfabético

Em seus 17 anos de existência, a WebTV também viveu alguns momentos muito estranhos. Por exemplo, seu sistema de criptografia era tão forte que o governo dos Estados Unidos chegou a considerá-lo “munição” (o mesmo aconteceu com o PGP), bloqueando sua exportação inicial. E em 2002, um tal David Jeansonne criou o primeiro vírus para WebTV, que mudava o número oficial do serviço para “911”. O vírus afetou menos de uma dúzia de pessoas, mas a justiça foi particularmente dura com Jeansonne: seis meses de prisão efetiva, seis meses de prisão domiciliar como parte de uma supervisão por dois anos, e mais de 27 mil dólares em multas.

A WebTV desapareceu, mas de certo ponto de vista, ainda está entre nós. Independizar a Web do computador de mesa não era uma má ideia, embora o destino final dessa visão não tenha sido a sala de estar, mas sim nossos bolsos, através de os dispositivos móveis e de muitas, muitas apps.

Fonte: Vice