As discussões sobre a aparente queda na qualidade de Os Simpsons são intermináveis, mas há um aspecto que ficou em segundo plano: a animação. O salto tecnológico nos últimos 34 anos foi impressionante, e os criadores da série não hesitaram em aplicar seus benefícios ao desenvolvimento de cada episódio. No entanto, não são poucos os fãs que veem a animação atual de Os Simpsons como "dura" ou "robótica". Hoje temos uma excelente oportunidade de estudar a evolução da animação de "Os Simpsons" e fazer comparações mais diretas entre temporadas.
Era uma vez em Springfield...
Recentemente exploramos a origem do famoso piloto "perdido" de Os Simpsons, e um dos detalhes mais interessantes é que seus criadores consideraram a possibilidade de cancelar a série se a qualidade da animação não melhorasse. Mas a opinião do público parece ir na direção contrária: hoje, a animação dos personagens é robótica e artificial demais, enquanto no passado o "efeito borracha" (que os showrunners odiavam) dava um certo perfil orgânico e caloroso à série. Um dos comentários sugere que Os Simpsons "não tinha medo de ser um desenho animado" nos primeiros anos e agora "busca escapar disso" de qualquer forma.
O que podemos fazer para resolver esse conflito? A resposta é comparar e estudar de perto a evolução da animação de Os Simpsons entre 1987 e 2021. Tecnicamente, nada nos impede de injetar meia dúzia de vídeos neste artigo, mas o pessoal da Insider compartilhou um excelente mini-documentário no YouTube que faz essa comparação, além de incluir detalhes técnicos fabulosos e pequenas entrevistas com as mentes criativas da série.
Evolução da animação de Os Simpsons, do início ao fim
Basicamente, tudo começava com os desenhos feitos à mão por Matt Groening, que depois eram enviados à equipe de animação, composta por três pessoas. David Silverman era um dos membros, e para animar um simples curta de um minuto e meio, eram necessárias entre 60 e 80 horas de trabalho por semana. Para economizar tempo, os animadores usaram e abusaram do tracing sobre os desenhos de Matt, iniciando uma série de mudanças importantes no design dos personagens, a ponto de eles parecerem completamente diferentes entre uma semana e outra.
Por exemplo, Matt Groening disse que os famosos "quatro dedos" tinham como objetivo simplificar o desenho, mas isso expõe um dado essencial: a aparente "simplicidade" dos personagens é, na verdade, uma farsa. Sua tolerância a erros é muito baixa, e algo como um traço muito grosso ou uma mudança no tamanho dos "picos" na cabeça de Bart pode arruinar o personagem entre dois quadros.
Regras, regras, regras
O resultado final foi uma espécie de "bíblia" com 500 páginas explicando todos os "permitidos" e "proibidos" na animação de cada personagem, incluindo a "regra de 8 pontos" para o cabelo de Lisa. Mas o vídeo da Insider também revela a razão por trás da visão "anti-borracha": os criadores queriam se distanciar de outros estilos de animação, como Disney e Warner. Os movimentos deveriam ser mais limitados, com exageros focados em momentos cômicos e dramáticos.
Apesar de todas essas regras, a consistência escapou pela janela mais de uma vez. Um bom exemplo são as pupilas: os personagens nunca devem parecer "vesgos", mas em apenas algumas temporadas, o tamanho das pupilas cresceu. Os criadores dizem que não foi intencional, embora Silverman sempre desejasse uma expressão de "ave confusa" para seus personagens.
Os primeiros experimentos digitais começaram em 1995, com a sétima temporada, em que se destaca "Radioactive Man" (S07E02): toda a cor desse episódio é digital. A grande aposta digital foi Treehouse of Horror XIII (primeiro episódio da temporada 14), e alguns episódios depois, a mudança se tornou definitiva. Os erros podiam ser corrigidos mais rápido e com custo muito menor.
Evolução da animação de Os Simpsons: a era HD
O momento decisivo para Os Simpsons veio com o filme de 2007. 2D e 3D ao mesmo tempo, puro CinemaScope, uma paleta de cores gigantesca e múltiplas fontes de luz marcaram seu desenvolvimento. As sombras na série eram usadas apenas à noite ou em momentos dramáticos, mas além de se multiplicarem no filme, também ajudaram a melhorar o efeito de profundidade. O filme explodiu nas bilheterias, e a série absorveu tudo o que foi aprendido. A 20ª temporada foi a primeira em HD, passando de 4:3 para 16:9.
Obviamente, esse salto evolutivo criou outros problemas, um dos mais importantes sendo a impossibilidade de reciclar material de episódios anteriores. Um bom exemplo é a cozinha de Os Simpsons e os ímãs na geladeira. A versão em SD não exigia muitos detalhes, mas em HD foi preciso refazer quase tudo. Springfield mudou para sempre.
E isso nos leva à muito debatida animação. Os Simpsons estão mais robóticos em HD? A resposta é sim, e os próprios criadores admitem. A nova abertura da série (especificamente, Marge no supermercado) foi usada como referência várias vezes.
No começo, a rigidez estava associada a uma combinação de falta de orçamento e aprendizado. Hoje podemos dizer que os personagens são um pouco mais fluidos, mas mesmo com 34 anos nas costas, a série é um trabalho em andamento. A evolução da animação de Os Simpsons deve continuar. Às vezes há sombras demais, às vezes há cor demais, e é provável que Homer e companhia jamais escapem da "rigidez natural" do HD. Mas uma coisa é certa: vamos continuar assistindo Os Simpsons, de um jeito ou de outro.