Não adianta negar: o ensopado é mágico. Um pouco de água, um pouco de fogo, um pouco de «o que for», os temperos certos, e automaticamente surge uma comida que nos permitiria brigar com um dinossauro depois de um ou dois pratos. No entanto, aprendi que alguns cozinheiros tentam estender essa magia indefinidamente, adotando a estratégia do «ensopado perpétuo». A ideia é abastecer a panela sempre que necessário, mantendo um nível adequado de líquidos, e muitos textos falam de ensopados que sobreviveram por décadas…
Em 6 de maio de 1981, o New York Times publicou um artigo do escritor independente Arthur Prager. No texto, ele fala de seu pot-au-feu, que manteve em ótimas condições por 21 anos. Ora, pot-au-feu nada mais é do que uma «panela no fogo», uma das definições mais puras de ensopado francês... mas 21 anos? Prager chega a dizer que seu exemplar era o mais antigo da área de Nova York (e até «dos Estados Unidos»), e acrescenta alguns detalhes coloridos que só podemos aceitar com uma pitada de sal: entre eles, destacam-se um ensopado «de 300 anos» na Normandia, e outro de Perpignan criado no século XV, que não sobreviveu à Segunda Guerra.
Ensopado perpétuo e a ideia de cozinhar «para sempre»
Fonte: Marielle Descalsota para Business Insider
Em uma tentativa de localizar exemplos modernos e verificáveis, as fontes nos levam a Bangkok, onde um restaurante chamado Wattana Panich oferece uma «sopa de carne e macarrão» mantida por 50 anos, e três gerações da mesma família. O dono explica que a retiram todas as noites, movem uma parte para outro fogo, limpam a panela principal e, no dia seguinte, adicionam os ingredientes e a água, preservando a cadeia. Como era de se esperar, o ensopado perpétuo teve seu momento viral graças à jornalista e comediante Annie Rauwerda (criadora do Depths of Wikipedia), que preparou um por 60 dias entre junho e agosto de 2023, com a colaboração do público.
Mas se tentarmos identificar a origem do ensopado perpétuo, todas as flechas apontam para a Idade Média. Os camponeses, em uma tentativa de economizar tempo, mantinham o fogo dia e noite, e colocar o ensopado em cima não foi mais que um salto evolutivo. A única razão pela qual ele se esvaziava completamente era a observação da Quaresma, para retirar a carne.
Escusado será dizer que as dúvidas sobre higiene e segurança alimentar são inevitáveis, mas atualmente temos grandes vantagens, e o ensopado perpétuo continua ganhando popularidade em diferentes regiões.
Fontes: The Independent, The New York Times, Business Insider, NPR, Wikipedia