O telefone foi e continua sendo uma das ferramentas de comunicação mais importantes já criadas, e seu enorme potencial obviamente abriu espaço tanto para negócios legítimos quanto para todo tipo de golpes e trapaças. O objetivo é sempre o mesmo: conseguir um dinheiro extra ou usufruir de um serviço caro sem pagar. Televisão e computadores fizeram uso e abuso do telefone para fins nada bons, e se observarmos com atenção, notaremos que a tendência ainda existe, embora tenha mudado completamente.
Os primeiros golpes telefônicos
Aqui vai um apanhado dos exemplos mais conhecidos, incluindo os CDs de certa empresa que, embora legais, nos fizeram chorar de dor. Era uma vez... nos últimos anos da década de 1950. Embora a patente do telefone tenha sido concedida a Alexander Graham Bell no século XIX, naquele tempo o telefone ainda era mais um luxo do que um serviço básico. São inúmeros os exemplos em livros e filmes em que alguém precisava ir ao "armazém da vila" ou à fazenda de um vizinho distante para fazer uma ligação.
Mas deixando a ficção de lado, em algum momento de 1957 conhecemos um garoto de oito anos chamado Josef Carl Engressia Jr., que nasceu cego. Aos quatro anos, Engressia ficou fascinado pelos telefones. Aos cinco, descobriu que podia discar números "batendo" no gancho do telefone naqueles aparelhos que tinham o disco de discagem protegido ou inutilizado. Aos sete, com seu ouvido absoluto, descobriu que assobiando um certo tom (2600 Hz) podia ativar os comutadores automáticos da Bell e, depois de explorar bastante o sistema, encontrar uma forma de fazer ligações gratuitas. Um gênio extraordinário, marcado pela cegueira e pelos abusos que sofreu na infância, Engressia (que legalmente mudou seu nome para "Joybubbles") mudou a história da telefonia, e outros gigantes da informática, como Steve Wozniak, o tomaram como inspiração.
O fenômeno do "phreaking" e o nascimento das famosas "caixas de cores" talvez tenham sido a razão original para as companhias telefônicas abrirem seus cofres e começarem a caçar todos os que o praticavam de uma forma ou de outra. Engressia, o famoso Captain Crunch (Joe Drapper) com o apito do cereal, e tantos outros especialistas da época foram detidos e condenados sob a acusação de fraude telefônica, mesmo que estivessem apenas "explorando" o sistema e não "tirando proveito dele".
Para as companhias, eles estavam fazendo ligações gratuitas, portanto "roubavam telefone", quando na verdade eram as vulnerabilidades do sistema, supostamente seguro, que permitiam isso. Ao mesmo tempo, também foram capturados outros, muito menos escrupulosos, que fizeram um verdadeiro estrago com esse conhecimento. Mas o Joybubbles? Só queria trabalhar para a Bell, não arruiná-la.
Números premium
Claro, o golpe telefônico foi muito além e não ficou apenas no lado tecnológico da cerca. A oferta de "serviços especiais" por meio de "números premium" está entre nós há décadas. Programas de TV, antigos e atuais, recorreram a esse tipo de número para obter lucros com as ligações. Embora os números premium sejam tecnicamente legais, o questionável tem sido a forma como são utilizados.
Há casos relatados nos anos 1980 em que alguns comerciais de TV tentavam as crianças a "brincar" com o telefone, dizendo para discar um número para começar. Assim, pais desavisados se viam com valores astronômicos na conta telefônica, tudo porque não havia restrições sobre esse tipo de número. Até um episódio de "Os Simpsons" mostra isso, quando Lisa tem problemas com a "hotline" do Corey.
Fraudes dial-up
Como alguns podem imaginar, o encontro entre linhas telefônicas e computadores foi inevitável. A história técnica dos modems remonta a 1920, mas a verdadeira "explosão" dos modems veio com o "Smartmodem", introduzido em 1981, o mesmo ano em que, por coincidências universais (ou talvez não tanto), aparecia o IBM PC. O design foi melhorado, a velocidade aumentou, houve até uma guerra de protocolos no meio K56Flex versus X2, e eventualmente chegamos à conexão à Internet por meio dos serviços "dial-up". Lembram-se disso? Pois é, esse ruído nos acompanhou por anos, mas também fomos obrigados a lidar com os famosos "dialers". O "dialer" ou "discador" nada mais é do que um aparelho projetado para discar números automaticamente.
Vimos um grande exemplo no filme WarGames, e há outro excelente capítulo de "Os Simpsons" em que Homer consegue uma dessas máquinas implacáveis e começa nada menos que uma fraude de telemarketing, outra variante do golpe telefônico. Mas no nível da computação, o "dialer" se tornou uma forma muito chata de malware. O dialer vinha disfarçado de algum programa de segurança ou de "serviço gratuito".
Ao aceitar o acesso, o usuário expunha seu sistema à instalação de um programa malicioso que automaticamente configurava uma conexão telefônica padrão para um número premium de alto custo, e havia até versões que desativavam o som do modem para camuflar a conexão remota. Um computador podia passar horas conectado a um número premium e de longa distância, então o valor na conta telefônica era o único indício tangível para o usuário de que algo estava errado com a conexão. Os dialers provaram ser bichos muito difíceis de erradicar.
A tormenta chamada America Online
Embora isso não se encaixe no golpe telefônico, foi um fato que levou milhões de usuários ao limite da paciência e à definição de "abuso comercial". O pesadelo terminou em 2006, mas antes disso, discos flexíveis no início (aproximadamente julho de 1993) e CDs em etapas posteriores, infestaram caixas de correio, jornais, lojas e basicamente qualquer lugar onde pudessem ser oferecidos.
Eu pessoalmente me lembro de lojas de eletrodomésticos que estavam dando os primeiros passos na venda de computadores e colocavam uma espécie de estande onde as pessoas podiam pegar os CDs voluntariamente. Com a promessa de dezenas, centenas e até milhares de horas grátis na Internet, os CDs da America Online tomaram de assalto o planeta inteiro. Fontes oficiais reconhecem que em determinado momento, metade da produção mundial de discos ópticos acabou com o logo da America Online em sua superfície.
Os problemas eram basicamente dois: as pessoas interpretaram mal o conceito de "grátis", e o software que vinha nos CDs era uma porcaria. Ao ler "1000 horas grátis de Internet", não foram poucos os que assumiram que conectar era "de graça", quando na verdade o grátis era o acesso à Internet, e não a realização da ligação. Quanto ao software, bem... só posso dizer que antes de escrever para a NeoTeo e outros meios, meu trabalho de assistência técnica se resumia a enfrentar dezenas de computadores reduzidos a uma pobre massa digital de "nada", por causa do dialer proprietário que a AOL colocava nesses CDs.
O mais perturbador de tudo? Foi uma campanha perfeitamente planejada. Steve Case, ex-CEO da America Online na época, comentou no Quora que na década de 1990, o objetivo era gastar até dez por cento do lucro obtido com a duração média de uma assinatura. Essa média era de vinte e cinco meses, somando cerca de 350 dólares de lucro, então a America Online calculou gastar cerca de 35 dólares por cada cliente potencial. Jan Brandt, outro ex-CEO, ofereceu um número: 300 milhões de dólares, algo que assumimos apenas para os Estados Unidos. E a quantidade de CDs? Convenientemente não há dados oficiais, mas algumas estimativas colocam o número em mais de um bilhão de discos.
Celulares e o "neo-golpe"
Com a chegada da banda larga, a eficácia do dialer como ferramenta de fraude fica limitada àqueles sistemas que ainda dependem de uma conexão telefônica para entrar na web. O que resta de "discagem" no ADSL é apenas a palavra (já que é mais um "login"), enquanto o modem a cabo não tem nenhuma relação com isso. Mas com o avanço da telefonia móvel, as formas de golpe também se adaptaram. Quem nunca se deparou com um anúncio publicitário que oferece enviar poemas, conselhos de amor, fotos de celebridades nuas e outras coisas para o celular, bastando enviar uma mensagem?
Esses "serviços" funcionam de forma muito parecida com os números premium, com a diferença de que alteram o preço (muito acima da tarifa normal) das mensagens. Ao perceber o engano, o usuário continua enviando mensagens pedindo o cancelamento, retroalimentando o golpe e consumindo seu crédito rapidamente. Já testemunhei vários casos em que as pessoas foram forçadas a cancelar sua linha de celular e trocar por um número diferente, por causa desse tipo de horror.
Há muito tempo, há uma tendência de queda no número de linhas telefônicas convencionais, em favor da telefonia móvel e da telefonia por IP. A tecnologia muda, mas o mesmo acontecerá com as fraudes e enganos. Não resta alternativa senão ficar atento, e isso inclui qualquer um que queira mergulhar no espírito daqueles pioneiros da telefonia e decidir descobrir como o sistema funciona. As empresas se tornaram implacáveis e são capazes de detectar muitas perturbações em uma linha. Não importa de que lado da cerca você está, cuidado.