Antes do Chrome e do Firefox, até mesmo antes do Internet Explorer e do Netscape... os primeiros passos na "nova" World Wide Web foram dados com a ajuda de navegadores que apenas um punhado de usuários conhece pelo nome. Este ano completam-se 30 anos da invenção da WWW, e, em comemoração, hoje vamos rever esses pioneiros digitais.
A história nos diz que em março de 1989, Tim Berners-Lee fez uma proposta para desenvolver "uma ampla base de dados de hipertexto" e embora o interesse não tenha sido muito grande no início, seu chefe Mike Sendall deu luz verde para utilizar uma estação de trabalho NeXT, que se tornou o primeiro servidor Web.
https://old.neoteo.com/la-primera-foto-subida-a-la-web/Nos dois anos seguintes, Berners-Lee criou alguns dos pilares fundamentais que ainda sustentam a Web hoje, e isso inclui o conceito de navegador. Toda essa informação linkada precisava ser acessada e/ou explorada de algum modo, e a necessidade de uma ferramenta especializada não tardou a se manifestar. A apresentação formal da World Wide Web no newsgroup alt.hypertext foi essencial para o desenvolvimento de navegadores adicionais, mas o primeiro deles, chamado WorldWideWeb.
WorldWideWeb
O navegador original de Berners-Lee era uma espécie de híbrido entre navegador e editor WYSIWYG. Seu código-fonte foi liberado para o domínio público em abril de 1993, e acredita-se que uma parte ainda permanece guardada naquele servidor NeXT, hoje uma peça de museu. Uma notável peça de software para a época, mas WorldWideWeb carregava a limitação de funcionar apenas no sistema operacional NeXT. Uma das ideias centrais da World Wide Web é a "leitura universal" e a condição técnica do WorldWideWeb ia contra isso, portanto...
Line Mode Browser
... isso levou ao nascimento do Line Mode Browser. Berners-Lee e sua equipe não puderam fazer um port do WorldWideWeb para X devido à falta de experiência, mas recrutaram Nicola Pellow, estudante de matemática que trabalhava como estagiária no CERN, para criar um "navegador passivo". A prioridade era a compatibilidade com os sistemas disponíveis, incluindo máquinas de teletipo. Apenas texto, nada de imagens, linha por linha (ou seja, sem posicionamento do cursor). O Line Mode Browser era básico até a medula, mas cumpriu seu propósito.
Erwise
Erwise nasceu graças ao esforço de quatro estudantes finlandeses: Kim Nyberg, Teemu Rantanen, Kati Suominen e Kari Sydänmaanlakka. Além de ser o primeiro com uma interface gráfica dedicada e a capacidade de buscar palavras dentro de uma página, o próprio Berners-Lee destacou alguns de seus aspectos mais positivos, como os links sublinhados, os botões "Página Anterior-Página Seguinte-Voltar", e um design geral que ele considerou "inteligente". O que aconteceu com Erwise? Foi morto pela falta de verba. A Finlândia estava afogada em uma recessão no início dos anos 90, e seus criadores foram obrigados a seguir com outros projetos.
ViolaWWW
Apenas um mês antes da estreia do Erwise, Pei-Yuan Wei, da Universidade da Califórnia (Berkeley), apresentou o ViolaWWW. Sem relação com o instrumento: na verdade, Viola é uma compressão de "Visually Interactive Object-oriented Language and Application". A principal fonte de inspiração para Wei não foi outra senão o HyperCard, velha conhecida aqui na NeoTeo. O problema do HyperCard era que só funcionava em Macs, e Wei nem sequer tinha uma à sua disposição. Ele pegou o manual do HyperCard, sentou-se diante de um dos terminais UNIX da universidade e transferiu seus elementos principais para X. O resultado final foi ViolaWWW, e o suporte para "applets" se tornou uma de suas funções mais importantes.
Midas e Samba
Midas é um dos "filhos" do SLAC, o Stanford Linear Accelerator Center. O físico americano Paul Kunz visitou o CERN em setembro de 1991 e lá viu "algo maravilhoso" (a WWW de Berners-Lee). Kunz apresentou a tecnologia à chefe da biblioteca Louise Addis, que colocou o banco de dados principal do site na Web, e os físicos do Fermilab não demoraram a montar seu próprio servidor. O navegador usado em Stanford era o Midas, criação do físico Tony Johnson. A grande vantagem do Midas era sua compatibilidade com documentos postscript.
De volta ao CERN, Robert Cailliau e Nicola Pellow (a mesma do Line Mode Browser) criaram o Samba ou MacWWW, o primeiro navegador para Macintosh Classic. No início, o navegador se recusou a cooperar, com um bug que o travava pouco depois do início da sessão. A história diz que Berners-Lee prometeu uma camiseta para quem conseguisse corrigir o erro, e a camiseta acabou nas mãos de John Streets, do Fermilab. O Samba buscava emular o design e a funcionalidade do WorldWideWeb, mas compartilhava muito código com o Line Mode Browser, ou seja, nunca chegou a reproduzir imagens.
Mosaic
Todo desenvolvimento tem seu momento divisor de águas, e no caso dos navegadores, ele se manifestou com a estreia do Mosaic. Criado no NCSA no início de 1993, o Mosaic abriu uma nova categoria graças ao seu espetacular suporte multiplataforma (X, Mac, Windows, Commodore Amiga), sua facilidade de instalação (era um único arquivo) e a velocidade com que seus responsáveis (com Marc Andreessen à frente) corrigiam bugs.
Mosaic nos deu vídeo, som, imagens inseridas nos documentos (cortesia da tag IMG), favoritos e suporte a formulários. Em meados de 1994, o Mosaic registrava uma média de 50.000 downloads mensais. Andreessen saiu rapidamente do NCSA para fundar a Mosaic Communications Corporation, que depois se transformou na Netscape Communications Corporation, e seu Netscape Navigator tomou o mercado de assalto em 1994. A era de ouro do Mosaic durou apenas cinco anos. Por volta de 1998, quase ninguém mais o usava.
Cello
No entanto, o Mosaic não foi o primeiro navegador compatível com Windows. Essa honra pertence ao Cello, desenvolvido por Thomas R. Bruce, do Instituto de Informação Legal da Escola de Direito de Cornell. Cello nada mais foi do que a resposta a uma demanda sustentada de acesso à Web por parte de advogados. Em outras palavras, o mundo do direito usava Windows, mas não incluía um navegador naquela época.
Suporte para imagens GIF-XBM-PCX-BMP, visualização postscript, som, salvamento e impressão de arquivos, bookmarks, visualização prévia de documentos grandes (na era do dial-up, isso era vital) e um bom suporte de protocolos demonstraram que o Cello era um navegador muito completo... mas o Mosaic absorveu seus usuários, e a versão 2.0 nunca viu a luz.
Sim, o Lynx ficou de fora da seleção, e sim, a épica guerra entre Netscape e Internet Explorer é imperdível, mas precisamos traçar uma linha em algum ponto. A história dos navegadores é fascinante, e poderíamos facilmente nos perder. Em essência, estamos diante de meia década de explosões tecnológicas que estabeleceram as bases da Web moderna. Devemos muito a eles, e vale a pena lembrá-los.
Fonte: Ars Technica