Antes do MS-DOS reinar, existia o CP/M; antes do IBM PC dominar, os usuários dependiam de plataformas muito variadas. O mercado de computação era essencialmente um faroeste, e a portabilidade de software não estava entre as prioridades dos desenvolvedores. Mas em 1978 surgiu uma exceção à regra: o WordStar. Este processador de texto não foi o primeiro do seu tipo, porém sua abordagem deu origem a versões muito semelhantes entre si, simplificando o salto de um sistema para outro.
A história nos diz que o primeiro software de processamento de texto foi o Electric Pencil, criado por Michael Shrayer em 1976 para o Altair 8800. O Electric Pencil exigia 8 kilobytes de RAM e rodava tanto no Zilog Z80 quanto no Intel 8080, porém Shrayer acabou preparando dezenas de edições especiais pedidas pelos clientes; entediado com o processo, ele contratou mais programadores para dar conta da demanda. (A informação disponível indica que existiram 78 versões diferentes.)
O Electric Pencil confirmou além de qualquer dúvida que a criação de documentos digitais era viável. Diante de tamanha demanda, a oferta não demorou a chegar, e foi em 1978 que um dos primeiros “imitadores” do Electric Pencil, batizado de WordStar, apareceu. Desenvolvido por John Robbins Barnaby para a empresa MicroPro International de Seymour I. Rubinstein, este processador virou um dos programas mais usados do planeta (sua distribuição com o Osborne 1 ajudou muito... assim como a pirataria), e sua transição para o MS-DOS só multiplicou sua popularidade.
WordStar: uma supernova entre os processadores de texto
Agora, o WordStar estava longe de ser um software ideal. Seus primeiros manuais eram terríveis, o desempenho das versões portadas deixava a desejar, e a complexidade da interface não escapou dos veículos da época. Mas, apesar dessas dificuldades, ele era o número um do mercado. Seu perfil WYSIWYG (What You See Is What You Get) e o modo “não-documento” de abertura de arquivos (muito usado por programadores) o colocavam em um nível diferente.
Decidi tentar escrever pelo menos uma parte deste artigo na versão 4.0 do WordStar. Embora a experiência não tenha sido totalmente agradável (sou um “iniciante” que nasceu depois do build original), também não foi catastrófica. Logicamente, os tutoriais integrados brilham por sua ausência; qualquer dúvida nos obriga a carregar o arquivo “Readme” ou, como alternativa, voltar aos manuais.
O guia oficial do WordStar 4.0 tem quase 400 páginas, e mais que um “manual”, é um verdadeiro guia de treinamento. Uma das primeiras coisas que aprendi nesse ambiente é que “Ctrl+B é seu amigo”: qualquer modificação ou mudança secundária pode arruinar o alinhamento do documento, e com Ctrl+B ordenamos ao WordStar que o corrija.
Devo confessar que levei muito tempo para entender a justificação do texto. Na configuração padrão, o WordStar 4.0 vem com ela ativada, mas precisei de alguns minutos extras para encontrar a opção que deixa o texto alinhado à esquerda. Também reconheço que me faltou coragem para explorar as réguas e margens, mas a parte inferior da interface é relativamente intuitiva, comportando-se de modo semelhante ao Norton Commander, com teclas de função associadas a comandos específicos (negrito, sublinhado etc.). Em resumo, o WordStar é 100% um programa dos anos 80: difícil na superfície, mas pode ser dominado na base da força bruta.
“E se eu quiser no Windows?”
Honestamente, acho que você ficará muito mais confortável com um processador moderno, mas o WordStar teve alguns usuários de alto nível. Em agosto de 2015, Anne Rice compartilhou seu apreço pelo WordStar em seu perfil no Facebook, e ninguém esquecerá facilmente a entrevista de George R. R. Martin no programa de Conan O'Brien, onde ele admitiu que o WordStar 4.0 é sua “arma secreta”:
De qualquer forma... se você procura uma experiência similar à do WordStar original, posso recomendar o WordTsar, que basicamente funciona como um clone da versão 7.0D. Na verdade, ele me foi muito útil ao carregar o documento que escrevi no 4.0, salvá-lo em formato RTF e importar seu conteúdo para cá. Divirta-se!