Era o ano de 1985. Tanto o ZX81 quanto o ZX Spectrum haviam tomado o mercado de assalto, mas o nome Sinclair já não carregava o mesmo peso. Mesmo assim, Sir Clive se deu ao luxo de iniciar uma nova aventura com os veículos elétricos. Foi assim que nasceu o Sinclair C5, um triciclo elétrico tão à frente de seu tempo que foi considerado um dos fracassos mais espetaculares da indústria britânica.
Era uma vez um cavaleiro...
Primeiro foi o computador ZX80. Logo depois apareceu o ZX81. E quase um ano depois, o mundo conheceu o ZX Spectrum. Um número conservador fala em sete milhões de unidades vendidas entre os três sistemas, sem contar a enorme quantidade de clones que surgiram mais tarde. O ponto é que todos sabiam quem era Clive Sinclair. Em janeiro de 1983, a Sinclair Research valia 136 milhões de libras, e em junho desse mesmo ano, Sinclair recebeu o título de cavaleiro.
Tudo parecia um sonho... mas os problemas não tardariam a chegar. A empresa lançou o televisor compacto TV80 em setembro, e só conseguiu vender 15 mil unidades, perdendo quase quatro milhões de libras. O computador Sinclair QL foi anunciado em janeiro de 1984, e uma combinação de atrasos e múltiplos problemas de design o transformaram em um fiasco.
Como se isso não bastasse, Sir Clive tinha algo parecido com uma obsessão por veículos elétricos. Durante o mês de março de 1983, ele havia formado a empresa Sinclair Vehicles Ltd. (com o dinheiro que recebeu pela venda de dez por cento das ações da Sinclair Research), mas não foi senão em janeiro de 1985 que a Grã-Bretanha conheceu seu plano mestre: O triciclo Sinclair C5.
Sinclair C5: “Veículo, não carro”
A apresentação oficial foi um verdadeiro espetáculo, e incluiu uma campanha publicitária de três meses, com um investimento de três milhões de libras. No entanto, quando a imprensa teve a oportunidade de testar o triciclo, rapidamente ficou claro que estava diante de um desastre de proporções épicas. Baterias se esgotando em questão de minutos (apesar de uns muito otimistas 32 quilômetros de alcance), sua nula resistência à hostilidade do clima e uma sensação total de vulnerabilidade diante do trânsito o condenaram desde o início.
O fato de não precisar de permissão para dirigi-lo limitou o Sinclair C5 em outros aspectos, como sua velocidade máxima de 24 quilômetros por hora. Toda a estrutura publicitária também esteve errada. Sinclair não hesitou em apresentar o C5 como um veículo “sério”, e um substituto multitarefa para carros e motocicletas, quando o resto das pessoas o via apenas como um brinquedo mais complexo do que o normal. Outro prego no caixão do Sinclair C5 foi martelado por James Tye, presidente do Conselho de Segurança Britânico, com um relatório tão negativo emitido dois dias antes da estreia oficial, que o próprio Sinclair o processou por difamação.
Ainda com o interesse dos famosos (Elton John e Arthur C. Clarke compraram dois cada um), esquadrões de adolescentes contratados para circular pelas ruas de Londres, tentativas de comercialização no exterior e cortes no preço (de 399 libras passou para 260, e depois para 140 com todos os seus acessórios), o destino do Sinclair C5 estava selado.
No meio de agosto, a Hoover (que até aquele momento havia sido responsável por fabricar o C5) anunciou o fim de sua produção. Em 19 de setembro, a Sinclair Vehicles mudou de nome, entrou em administração judicial em outubro, e foi liquidada em novembro. Pouco alegre foi aquele momento para os investidores ao descobrir que Sir Clive recuperaria 5,9 milhões de libras, as quais havia colocado como título de crédito reembolsável.
Sobre um total de 14 mil unidades, apenas cerca de nove mil foram vendidas. Com o tempo, o Sinclair C5 se transformou em investimento especulativo para alguns (colocando unidades no exterior a preços exorbitantes), e em objeto de coleção para outros, com modificações que incluem propulsão a jato e motores de combustão interna.
Ainda assim, o Sinclair C5 não deixa de ser um asterisco comparado com a ampla e bem-sucedida carreira de Sir Clive, a quem perdemos recentemente devido a complicações em sua saúde. Um verdadeiro titã nos abandonou, e o vazio que deixa é enorme. Até sempre, Sir Clive, estamos em dívida.