Ah, como se sente falta dos tempos do multiplayer local! Aqueles em que o jogo era uma ótima desculpa para reencontrar amigos, tomar algumas cervejas geladas e conversar sobre a vida enquanto você acabava com eles no Mortal Kombat II, ou cooperavam para desvendar os planos do Mad Cat em Chip 'n Dale Rescue Rangers. Hoje em dia é tudo muito bonito jogar com qualquer pessoa online, mas falta o calor humano, a companhia, a camaradagem e, por que não, a oportunidade de rirmos na cara do perdedor, que acabou de ser vítima de a mais desonrosa fatality possível.
Por sorte não são poucos os super-heróis do DIY que vêm com alternativas na manga, para voltar a tornar nosso hobby favorito uma questão presencial. DOBOTONE (por DOIS BOTÕES) é uma dessas alternativas Tête à Tête e vem das mãos, nada mais nada menos, da VIDEOGAMO, empresa responsável pela instalação artística e interativa conhecida como NAVE (da qual já falamos no NeoTeo). E nesses tempos de individualismo raivoso, em que as instâncias sociais muitas vezes são reduzidas ao que acontece nas redes 2.0, qualquer uma dessas ideias é bem-vinda não só por ser divertida, mas também por tentar criar laços fora do virtual, nos obrigar a levantar o traseiro da cadeira, sacudir o eremita que todos carregamos dentro e socializar como nos velhos bons tempos.
O que é DOBOTONE?
DOBOTONE, segundo palavras de Hernáz Saenz, criador da besta junto a Máximo Ballestrini, é “um console de videogames para festas. Os jogadores usam joysticks que só têm dois botões, sem pad nem alavanca, e no console há botões giratórios para modificar os jogos, que estão dentro da máquina. A ideia era montar um console com a resistência de um arcade que pudesse ser ligado a uma TV, monitor ou projetor e que pudéssemos levar para festas, casas de amigos, eventos, etc.”
Havendo literalmente cruzado o mundo com NAVE, o arcade da nave que fez furor onde parou, os garotos da VIDEOGAMO entendem muito bem as exigências que um jogo tem que cumprir para ganhar um lugar numa reunião entre amigos. “Por exemplo, a acessibilidade. Assim como NAVE, DOBOTONE busca que qualquer pessoa na festa se sinta tentada a pelo menos experimentar, seja ou não jogador habitual. Que entenda de fora mais ou menos como funciona e que pense que é capaz de fazer. É muito comum que digam 'Não, sou péssimo. Não entendo nada'. Por isso buscamos simplificar ao máximo a forma básica de conectar o jogador à máquina.”
Os jogos
Com sete jogos projetados, mais outros cinco prestes a serem incluídos, a VIDEOGAMO espera ter em breve 20 jogos pensados especificamente para o console festeiro. “Creio que meu favorito é o que chamamos de 'karate' (os jogos nem têm título, cada um dá o seu). É um jogo de luta em que você tem que evitar ser atingido porque a cada golpe, perde uma parte da sua armadura (ao estilo Ghosts ‘N’ Goblins / NAVE) até ficar só o esqueleto, o último ponto de energia antes da derrota. Cada botão serve para se mover e golpear o oponente ao mesmo tempo, para esquerda e direita. Esse jogo, além disso, mostra muito bem as possibilidades de modificação de variáveis que o sistema tem.”
Sucesso na GDC
O console vem fazendo sucesso onde se apresenta. Semanas atrás, DOBOTONE esteve na GDC e seus criadores ficaram muito contentes: “Foi muito bem, voltamos contentes. Foi o primeiro teste em massa do console e pessoas de muitos países diferentes o testaram. Vários nos disseram que era das melhores coisas que tinham visto na GDC, então já com isso estamos infinitamente mais satisfeitos do que esperávamos. Além disso, serviu para termos muito mais claro do que se trata o projeto e assim ter mais claro qual é o seu caminho.”
Por dentro do hardware
Quanto ao hardware que utiliza, e como no NeoTeo somos super interessados em DIY, perguntamos o que havia debaixo da carcaça. Leiam isto, que vocês vão adorar pela engenhosidade: “Neste momento, a versão que existe do console é um protótipo feito de papelão, completamente funcional. O próximo passo é montar uma versão mais resistente para testá-la de verdade numa festa, sem que tenhamos que estar lá. (...) A versão atual do DOBOTONE é feita em Unity e funciona com um laptop escondido dentro do gabinete. Para a comunicação entre os botões e perillas do console e o PC, usamos um Arduino e para os quatro joysticks, uma pequena placa caseira que o Maxi montou. As telinhas de pontuação são dois smartphones meio escondidos e os botões e perillas são padrão, comprados na internet ou em lojas de eletrônicos. Esta versão de papelão foi feita um pouco com o que tínhamos à mão na época, tentando gastar o mínimo de dinheiro possível. O suficiente para ver se o conceito funcionava. Agora estamos preparando uma nova versão do console que visualmente é muito parecida com a atual, mas internamente vai ser um pouco menos precária e mais duplicável, reproduzível.”
E quando teremos uma?
Tudo muito lindo, mas existirá alguma possibilidade de possuir a máquina para nossas próprias festas privadas? “Queremos que exista a versão ideal com hardware e tudo, mas que também possa haver uma versão DIY em papelão que se possa fazer com tutoriais, ou uma versão pelada para Steam ou tablets e celulares.” Mas para isso falta, assegura Hernán, que está levando o desenvolvimento da DOBOTONE com a tranquilidade com que se levam bons projetos.